sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desafio de Escrita - Soluto

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Desafio de Escrita #1: 
Tema: "Recomeços"
Data: 1 de Outubro
250 palavras







Soluto

                Reinicio o processo. Já foram quantas vezes? Não sei. Não sei, mas não vou desistir. Tenho a certeza que encontrarei a fórmula correcta, se obedecer ao método científico. Utilizei-o uma e outra vez, outra vez, outra vez, mas ainda não me saiu bem. Vou tentar de novo.

                Aqueço o solvente. Bico de bunsen com chama gaseificada, no frasco de vidro crescem as bolhas, espessas e perigosas, rebentam e saltam os salpicos. Mas eu tenho todo o cuidado, na hotte é preciso ter todo o cuidado. As luvas funcionam, a bata funciona, os óculos e a máscara de protecção, tudo funciona. Muito cuidadosamente, adiciono o soluto. Sei que a fórmula do soluto está correcta. Tenho a certeza absoluta, embora ainda não tenha tido provas concretas. Com toda a precisão, deixo cair as microgramas do soluto, pequeníssimos grãos brilhantes, salinos. Misturo.

                A solução reage. Reage! Um pequeno espasmo de líquido, mil microscópicas gotas, a espuma, a espuma que pousa numa água de mil cores! Sim! Panaceia universal, conseguida após tantos recomeços!

                Levo-a para a refrigeração, tomando o frasco nas mãos como se da mais delicada planta se tratasse. Não consigo conter a minha excitação. Apetece-me dar saltos no ar, rodopiar, cantar, cantar…!

                Não!

                Tropeço. Caio. No chão se desfaz o frasco, a solução desaparece pela magia da evaporação.

                Bolas. Lá terei de começar outra vez.

domingo, 25 de junho de 2017

A Ilha Maravilhosa

Foto tirada numa ilha maravilhosa, circa 2017










A Ilha Maravilhosa

                Sou uma criança e depois de ir aos concertos vi-me a brincar na ilha maravilhosa. A ilha não se chama assim, mas é o nome que lhe dou porque ela é, realmente, uma maravilha. Da entrada da ilha, no topo da montanha, desço por escadas de pedra negra, entalhadas na floresta, até chegar a grutas cheias de esconderijos, rodeadas por flora exuberante, verdejante, tudo é verde e tudo é azul porque a floresta se une ao mar. Mar brilhante, transparente, tocando na erva florescente numa baía. As pessoas apanham sol, as pessoas protegem-se do sol na sombra das montanhas que rodeiam o mar. Eu, eu por mim brinco. Brinco ao elástico e o elástico é um círculo mágico de símbolos brilhantes de onde nascem fadas. Estou com os meus amigos e os meus amigos são crianças, nunca os vi antes mas eles são meus amigos, todos somos crianças.

                Ela tem o cabelo loiro entrançado, desde o topo da cabeça até à cintura. Ela é um pouco gorda e tem calções de ganga e uma t-shirt da Minnie toda suja, que mal lhe cobre a rotunda barriga parasitada e aquosa.

                Ele tem a pele morena e a cara comprida, cavalar, cabelo escuro e denso. Ele tem calções de ganga e uma t-shirt branca toda suja, demasiado comprida, que lhe cobre o torso macilento e ossudo. Ele tem uma máquina fotográfica e quer tirar-nos fotos na ilha maravilhosa, mas a minha roupa não é boa para fotografar, as sapatilhas brancas, a saia comprida de bombazine cor de rosa, a blusa com folhos cor de rosa, os meus cabelos longos e negros e longos e negros, oleosos pela seiva das plantas, orvalhados pela humidade do ar.

                “Porque não tiras fotografias à ilha?”

                “Porque a ilha não é interessante, só tem aquelas fumarolas”.

                Fumo sai de pontos estranhos das montanhas, como se a floresta estivesse em chamas, pequenos incêndios localizados que são apenas o bafo da terra, cheio de enxofre e tóxicos. Estão lá longe. Aqui faz frio.

                De repente, o meu amigo salta para a frente. Alguma coisa aparece na baía e essa coisa parece ser motivo de maior para se tirar fotografias. Uma coisa. Uma coisa enorme. Sáurio potente, escamoso, escuro, de patas triangulares, com um enorme chifre no focinho diabólico, todo ele cheira a mar e enxofre, todo ele cheira às baleias que caçámos com arpão na falésia, todo ele cheira ao sangue mordido pelos cães de água, o monstro é o ventre da baleia morta, o monstro é a cria da baleia morta que não nasceu porque matámos a baleia, a baleia está morta.

                Claro que como isto é a ilha maravilhosa, claro que o monstro é um monstro da paz e nada de mal fará a ninguém. Todos correm para o ver e as pessoas que apanham sol à beira da água levantam as cabeças. De onde estou parece que o monstro gigantesco é do mesmo tamanho das pessoas, ele muda de tamanho conforme as pessoas mas ainda assim é enorme, enorme como a própria ilha. Inclina a focinheira de narinas latejantes sobre um banhista e, boca de rodas dentadas, beija-lhe a cabeça, morde-lhe a cabeça, absorve o seu corpo, a sua alma, brevemente o banhista é só um saco de pele e ossos.

                Só aí é que as pessoas gritam e todos tentam fugir.

                O resto é muito rápido. Todas as pessoas sofrem o processo de absorção, o monstro cresce e diminui, as pessoas morrem e são sangue e ossos e são sacos de plástico pretos, são sacos do lixo perdidos na poluição do mar, só faltamos nós, só faltamos nós, grito para a minha amiga entrar na gruta, escondo-a numa reentrância coberta de ervas daninhas todas secas. Eu escondo-me ao lado, junto a uma parede de estalagmites, poças de água e musgo tumefacto. O monstro aproxima-se e o seu cheiro é marinho, o monstro aproxima-se e eu penso “come, come a minha amiga, come-a toda, papa-la”, mas é a mim que ele me come, morde-me a cabeça e arrasta-me, eu gritando pelo chão, eu vejo-me a ser transformada num saco e o monstro labe os beiços e caminha para dentro de água, a sua cauda cianótica suja de fezes abanando de felicidade pela chacina.

                Mas eu ainda estou na gruta. A minha amiga foge, foge pelas escadas acima e à minha frente fecha-se a porta de uma cabine telefónica. Abro-a. Corro atrás da minha amiga, suas tranças abanando, eu gritando “ainda aqui estou, ainda estou viva!”

                Chego a ela, ela está a tentar abrir as portas de vidro que nos darão acesso ao metro e nos permitirão fugir da ilha (maravilhosa ilha, maravilhosa), eu grito “espera por mim, ainda aqui estou, ainda estou viva!”, e toco-lhe, abraço-a por trás, mas quando lhe toco não toco porque eu já não existo, minhas mãos atravessam as tranças loiras, meu corpo passa pelo meio da barriga porcina, meus cabelos negros misturam-se com a carinha torta e pálida da minha amiga e eu grito “ainda aqui estou, ainda estou viva!”, mas não estou porque a minha voz não existe e eu morri quando o monstro me arrastou pelas ervas e agora o meu corpo é nada, resta apenas o que eu sou, mas ninguém pode ver isso.

                Ela atravessa as portas automáticas, que finalmente se abrem. Oiço o metro a chegar ao longe. Ela corre, as portas fecham-se. Não as posso atravessar.

                Só eu, só eu aqui. Eu na ilha maravilhosa.

domingo, 7 de maio de 2017

Chemo

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Chemo


                Apesar de tomar banho todos os dias, só lavo a cabeça duas vezes por semana. Não tenho tempo, não tenho paciência: o meu cabelo é demasiado comprido e cheio. Preferível andar com ele sempre preso, num rabo-de-cavalo ou, ainda melhor, num coque. Assim, não perco por aí um milhão de caracóis e outros cabelos fugitivos. No entanto, nessa manhã em que fazia os meus vinte e seis anos, pensei que queria lavar a cabeça.

                Estava a lavá-la, ainda cheia de sono, mal acordada de uma noite de excitação (afinal, estava prestes a fazer anos!), quando reparei que algo estava errado com o meu corpo. Olhei para o meu peito e, no centro, precisamente no meio do esterno, estava uma coisa redonda. Não entrei logo em pânico, penso eu. Ainda estava demasiado adormecida para entrar em pânico. Mas quando me vi ao espelho, reparei que alguma coisa estava realmente errada. Uma bola, uma massa, como um terceiro seio. Ali no meio. Coberto por pele. Duro. Carreguei-lhe: não doía. Podia senti-lo a mover-se ligeiramente, se lhe tocasse. Pensei, claro, que poderia aguardar que o meu dia de aniversário terminasse. Podia ser que passasse durante o dia. Se lhe pusesse um pouco de gelo. Se lhe pusesse um pouco de voltaren ou fenergan. Provavelmente era uma borbulha, uma reacção alérgica exagerada.

                Mas quando fui por o sutiã, percebi que tinha de tratar do assunto imediatamente. O meu corpo estava mutado e não poderia passar o aniversário assim. Estava feia. Ninguém merece estar feio no dia de anos.

                Chamei a minha mãe, que estava na cozinha a preparar um bolo de chocolate. Nem sequer gosto muito de bolo de chocolate, mas queria deixá-la participar nas celebrações da forma que mais lhe apetecesse. Enfim, ela apareceu e imediatamente interrompeu as suas actividades culinárias para me levar ao hospital. Podia ser algo muito grave!

                Deram-me uma pulseira verde nas urgências. Chegámos lá… Seriam umas onze horas da manhã. Anoitecia quando fui atendida. Imediatamente, fizeram uma série de requisições para exames, sem sequer olhar muito para o objecto que tinha crescido no centro do meu peito. Eu perguntava-lhes se não podiam simplesmente arranca-lo. O meu dia, o meu dia especial: arruinado.

                Passados alguns dias, vieram os resultados. Pediam-me para marcar uma consulta na oncologia. Oncologia? Porquê? Eu era, eu sou!, demasiado nova para ter um cancro! Deve haver algum engano!

                A médica mostrou-me os resultados dos exames. Passava-se algo de incompreensível comigo: de um dia para o outro, havia-me crescido uma massa que, certamente, era tumoral. Porque normalmente as massas que crescem nos corpos das pessoas são tumorais. Mas os exames feitos, o raio-x, a tac, a biópsia, revelavam que a estrutura desde objecto estranho era muito especial. A médica conseguiu apenas descrevê-lo como “aparenta ter a estrutura de um caroço, como um caroço de abacate, quer na forma macroscópica quer no exame histopatológico da biópsia.”

                “Vamos ter de o tirar, mas primeiro temos de o reduzir. Vamos hoje falar do seu plano para quimioterapia.”

                Ao início recusei-me. Continuava a acreditar que o tal caroço de abacate desapareceria se aguardássemos. Mas quando contei o resumo da consulta à minha mãe, ela entrou em pânico. O pânico que eu ainda não tinha passou de imediato para ela e ordenou-me, sem mais questões, que fizesse exactamente o que os médicos diziam.

                Assim começou o meu tratamento.

           Eram comprimidos, era medicação injectável. Ao início não custava, claro, mas depois começaram os efeitos secundários. O primeiro foi a náusea. Não conseguia comer nada, tudo me deixava a boca seca, como se estivesse a comer cartão. Quando comia alguma coisa, o meu estômago revoltava-se e ordenava-me que corresse para a casa de banho, onde eu expelia os pedaços de alimentos meio mastigados, misturados numa gosma amarelada, que borbulhava no fundo da sanita como uma poção de bruxedo. Mas, graças ainda a outra medicação injectável, comecei a tolerar melhor os alimentos. Descobri coisas novas sobre as minhas preferências alimentares. Passei a gostar de grelos. Passei a detestar gelados. O caroço de abacate no meu peito continuava exactamente na mesma.

                Comecei a reparar que outras alterações aconteciam com o meu corpo. Frieiras nos dedos, das mãos e dos pés, como se o músculo dentro da pele de repente inchasse demasiado e se quisesse libertar. As minhas unhas negras, frágeis. Um dia começaram a cair. E o cabelo. Também começou a cair. Acordei um dia e tinha uma enorme mecha de cabelo, como a cauda de um animal, solto na almofada. Quando lavei o cabelo nesse dia, caiu quase todo. Chorei. A minha mãe levou-me a um cabeleireiro para rapar a cabeça. Depois fomos comprar uma peruca. Perucas caras, de cabelos naturais, cabelos vindos de cabecinhas rapadas na Ásia ou noutro sítio qualquer. Tudo aquilo me parecia deprimente. Eu que sempre me tinha queixado do meu cabelo demasiado grande e volumoso, agora era uma careca em busca de uma cabeça falsa. 

                A minha mãe acabou por escolher uma para mim. Era parecida com o meu cabelo original. Foi cara, muito cara. Mas a minha mãe apenas me queria ver feliz naquele momento. O que me faria mais feliz seria ver-me livre do caroço de abacate sem ter de passar por todas aquelas coisas. Afinal, que mal pode fazer um caroço de abacate? Houvesse um sutiã com três bolsas e talvez pudesse viver com ele para sempre. Ou talvez crescesse um abacateiro no meu peito.

                Na rua usava sempre a peruca. Na oncologia tive um workshop de amarrar lenços na cabeça e passei a usar isso em casa. Via-me ao espelho com o lenço e reparava que a minha cara de vinte e seis anos tinha envelhecido décadas em poucos dias. Eu emagrecia e as minhas bochechas desapareceram. Eu emagrecia e as olheiras aumentavam, em grandes papos violetas.

                Ia ao hospital frequentemente. Os médicos não sabiam explicar porque é que, apesar de todos os tratamentos, o suposto caroço de abacate não desaparecia nem diminuía de tamanho. Com a dimensão que tinha, era demasiado perigoso operar, para se proceder à extracção.

                Comecei a fazer radio. Radio como em radioterapia, não como em estação FM. A pele de toda aquela zona ficou negra e começou a cair em pedaços. Era carne viva e, por baixo, conseguia ver a cor da minha massa e um bocadinho da sua textura. Era exactamente como tinham descrito: um caroço de abacate.

                Mas, apesar de tudo, não diminuiu.

                Portanto, tenho de continuar a fazer quimio, a fazer radio, a fazer de tudo. Quero parar, mas a minha mãe não deixa. Pensam que é um cancro, um cancro de mama. Pode metastizar para o pulmão, para o fígado, para o esófago. A minha mãe não quer que eu morra, claro. Eu também não quero morrer, claro. Mas ninguém me ouve quando tento explicar que esta coisa é absolutamente inofensiva. É um abacate, não passa de um abacate. Tenho de continuar a vomitar, a emagrecer, com partes do meu corpo a cair, tudo por causa de um abacate.

                Não é ele que me vai matar, penso. Acho que é a cura que me vai matar. O coração já começa a dar de si. Talvez depois de eu morrer possam fazer a excisão da massa e aí saberão que eu sempre tive razão.

                Por enquanto, aguentar a cura. Mas tenho a certeza que me vai matar.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Andar de bicicleta ninguém esquece

Foto das nuvens em forma de mapa-mundi (Monte Negro, Brasil, 2012)
 
 
 
 
 
 
 
 
 Andar de bicicleta ninguém esquece
 
                A primeira coisa foi a casa na árvore. O meu pai começou a construí-la, colocando barrotes que tinham sobrado da obra da pérgola de forma a fazer a base daquilo que viria a ser uma casa: habitáculo de diversão para mim e para a minha irmã, onde poderia observar pássaros e todos os animais selvagens que vinham descritos nos fascículos sobre natureza que coleccionávamos. Enquanto o meu pai criava as fundações, no topo da árvore, mantinha-me dentro de casa, evitando aquele sol ribatejano abrasador, do tipo que estala a terra e evita o crescimento de plantas e formas larvares, mantinha-me no fresco, lendo, lendo, sempre lendo.

                Fascículos sobre a natureza, fascículos sobre actividades de escuteiros mirins, porque é que nunca me deixaram entrar nos escuteiros (não sabia na altura que era uma actividade religiosa). Lia o Uma Aventura e lia o Quarteto de Alexandria, lia o Triângulo Jota e lia o José e seus Irmãos, lia os fascículos sobre a natureza. E o meu pai construía a casa na árvore.

                Quando as fundações ficaram prontas, ele convidou-nos a subir, para vermos a vista, para constatarmos como seríamos felizes naquele lugar secreto, uma segunda casa para nós, com todo o conforto, como nos filmes, como nos livros. Foi só nessa altura que descobrimos que a árvore escolhida para ser o apoio do habitáculo era demasiado alta, demasiado íngreme: impossível de subir. Os meus dedos roídos feriam-se na casca da oliveira, as ervas agudas picavam-me as pernas por baixo dos calções de licra, tentei subir, caí, voltei a cair. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã era demasiado pequena para sequer tentar.

                Como o projecto da casa da árvore teve de ser abandonado, deixando-se os barrotes a apodrecer, fundação incompleta, casa de impossibilidades, passámos ao próximo plano: o carrinho de rolimã. Só sabíamos da sua existência por causa das aventuras nos livros da Turma da Mônica, mas recebemos a notícia de que o meu pai iria construir os nossos próprios carrinhos brevemente. Fomos a uma loja de ferragens para encontrar rolamentos, encontraram-se umas tábuas velhas e o meu pai pôs mãos à obra.

                Eu levava os nossos cães a passear, soltava-os das correntes por um momento e fingia ser uma grande treinadora. Propunha-me a ensinar a rafeirada amiga a detectar drogas e açúcar em sangue de diabéticos, levando-os a ver o campo circundante com uma minúscula trela (são cães ferozes, são cães de ataque, têm de andar em trela curta, têm de ter açaime, cães de ataque, cães de ataque). Mas os cães não me obedeciam. Uma tarde semanal não era o suficiente para os ensinar, mas na altura eu não sabia, colocava-os a lutar para se entenderem, obrigava-os a estabelecer uma hierarquia impossível, depois corria tudo mal, tudo mal. Voltavam à corrente. Saltavam, ladravam, desespero por um pouco de contacto humano. Sempre na corrente, cães soltos no campo são perigosos, o campo é perigoso para eles, podem matá-los a tiros de caçadeira, podem envenená-los, podem ataca-los (cães de ataque).

                Ficou pronto o carrinho de rolimã (rolamentos, rolimã, rola, romã).

                Levámo-los para a rua mais inclinada da aldeia. Na altura não havia capacetes, nem cotoveleiras, nem joelheiras, nem caneleiras. Eu seria a primeira a descer no precário mobil construído pelas grossas mãos paternas. Não tive coragem. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã também chorou nesse dia. Também tinha medo de descer. O mais provável era o bólide desfazer-se a caminho da meta de chegada. Mas não podíamos dizer isso.

                Mas havia uma coisa, para além dos fascículos sobre a natureza, para além dos cães, para além das árvores, para além do sol que estalava a terra e impedia o crescimento das larvas. Havia a bicicleta.

                Tinha visto a mais perfeita bicicleta infantil numa loja perto da minha casa. Muito cara, muito cara, mas de todos os modos perfeita: guiador cor-de-rosa, uma cestinha na frente, selim estampado com gatos. Queria-a. Precisava de a ter. Para poder viver aventuras precisava de uma bicicleta: era assim que os miúdos dos filmes se transportavam de um lado para o outro. Portanto, o meu pai comprou-nos bicicletas. Não eram como tinha idealizado: a minha era cor de laranja e branca, um protótipo de bicla de corrida adaptado ao meu tamanho diminuto. A da minha irmã era azul, com um estampado que parecia ganga, menorzinha, apropriada ao seu tamanho de micróbio humano. Ambas tinham as rodinhas de apoio. Ainda não sabíamos andar de bicicleta, mas íamos aprender.

                Ao início correu tudo bem. Dávamos voltas ao pátio, cães ladrando, pólenes penetrando minhas narinas, alergia à humidade, voltas ao pátio nas pausas da leitura, voltas ao pátio depois dos desenhos animados. Depois aventurei-me a sair do pátio: muito complicado, a terra destruída pelo sol não era a direito, altos e baixos, subidas e descidas, as rodinhas de apoio não andavam por mais que esforçasse os meus joelhos nodosos a ir para cima e para baixo (na altura era magra, um pequeno aranhiço, na altura diziam-me que tinha de me esforçar para ser mais alta, mas os joelhos não cresciam, ficaram sempre do mesmo tamanho). Então, um dia, o meu pai decidiu mostrar-nos como guiar uma bicicleta sem as rodinhas.

                Não estava à espera, eu não estava à espera, que viesse a ter medo. Mas tive. A estrada não era igual à dos filmes, as casas não se sucediam com seus jardins frontais a uma estrada de asfalto, sempre a direito, sempre cinzenta e sempre a direito. Aquela estrada estava retalhada em buracos e buraquinhos, cheia de água da chuva, cheia de lama. Com lombas, subidas, descidas. Assim que experimentei a bicicleta sem as rodinhas, caí. Tudo terminava comigo a chorar.

                Depois crescemos e a casa na árvore apodreceu, o carrinho de rolimã foi transformado em tábuas para lenha, a bicicleta ficou algures a ganhar ferrugem, só os livros se mantinham fiéis a si mesmos. Agora tínhamos ocupações, tinha de sair cedo para andar de cavalo, tínhamos de ver os filmes que alugávamos no Blockbuster sem falta, tínhamos de gravar os desenhos animados para não perdermos nenhum episódio (não achas que já não tens idade para ver isso?), tinha de estudar matemática, tinha de treinar os meus cães, parasitados, enviesados, doentes, envenenados, tinha de fazer coisas, tinha de fazer. Esqueci os fascículos e o sol tornou-se um pesadelo. Rachas na terra, rachas na minha cabeça, sol na moleirinha até fazer derreter os cabelos. E as alergias, tantas alergias.

                Um Verão, fomos à terra. A terra do meu pai, que fica no Brasil. O ar fresco, cheiro a chuva, mitos de infância (uma vez tomei banho na chuva, com sabonete e tudo), o céu. Apenas o céu, largo, infinito, desfeito em milhares de matizes de cor. Um dia vamos pescar no rio (infância), um dia vamos ver o seminário (infância), um dia vamos. Passava grandes tardes com os meus primos, a comer melancia, a comer pastel, tomando chimarrão. O frio não era tão frio. O calor não era tão quente. O céu pleno de nimbus flácidas, que se iam desfazendo.

                Vamos passear de bicicleta?, perguntava-me a minha prima. Não sei andar de bicicleta, respondi à minha prima. Uma vez aprendi, expliquei, mas depois esqueci-me como se faz.

                Andar de bicicleta ninguém esquece.

                Com toda a paciência, foi buscar a sua bicicleta, em nada semelhante ao veículo laranja e branco onde tinha tentado a primeira vez. Maior, preparada para mais tipos de terreno. Pus-me em cima dela e ela explicou-me. O processo era simples: dar aos pedais. Mas como me equilibrar?

                Continua sempre a pedalar.

                Ela apoiou-me e eu fui andando. Ela apoiou-me e depois largou-me e eu continuei a andar. Fui dar uma volta pelo quarteirão. Tal e qual como imaginava: a estrada asfaltada, direita, as vivendas com jardins frontais, árvores na calçada deixando cair frutos do tamanho de abóboras, folhas mortas, sapos saltitando entre os raios das rodas. Fui andando, sempre andando, pedalando. Rápido, sempre mais rápido, com toda a confiança. O selim magoa um pouco as partes, mas sou rápida, como uma brisa, como uma flecha. O céu avermelhado mostra nuvens com a forma do mapa-mundi. O céu rosado derrete-se em noite, está quente mas está fresco, sinto o ar entrando para a minha laringe, para os meus brônquios, bronquíolos, alvéolos pulmonares, o céu é tão grande. Livre, sou livre.

                Caio. Desiquilibro-me e caio, joelho nodoso em cima da borda da calçada. Sangue.

                Em frente a uma casa, sentados em cadeiras de praia, dois cotas olham para mim. Riem. Riem em brasileiro.