sexta-feira, 10 de março de 2017

Andar de bicicleta ninguém esquece

Foto das nuvens em forma de mapa-mundi (Monte Negro, Brasil, 2012)
 
 
 
 
 
 
 
 
 Andar de bicicleta ninguém esquece
 
                A primeira coisa foi a casa na árvore. O meu pai começou a construí-la, colocando barrotes que tinham sobrado da obra da pérgola de forma a fazer a base daquilo que viria a ser uma casa: habitáculo de diversão para mim e para a minha irmã, onde poderia observar pássaros e todos os animais selvagens que vinham descritos nos fascículos sobre natureza que coleccionávamos. Enquanto o meu pai criava as fundações, no topo da árvore, mantinha-me dentro de casa, evitando aquele sol ribatejano abrasador, do tipo que estala a terra e evita o crescimento de plantas e formas larvares, mantinha-me no fresco, lendo, lendo, sempre lendo.

                Fascículos sobre a natureza, fascículos sobre actividades de escuteiros mirins, porque é que nunca me deixaram entrar nos escuteiros (não sabia na altura que era uma actividade religiosa). Lia o Uma Aventura e lia o Quarteto de Alexandria, lia o Triângulo Jota e lia o José e seus Irmãos, lia os fascículos sobre a natureza. E o meu pai construía a casa na árvore.

                Quando as fundações ficaram prontas, ele convidou-nos a subir, para vermos a vista, para constatarmos como seríamos felizes naquele lugar secreto, uma segunda casa para nós, com todo o conforto, como nos filmes, como nos livros. Foi só nessa altura que descobrimos que a árvore escolhida para ser o apoio do habitáculo era demasiado alta, demasiado íngreme: impossível de subir. Os meus dedos roídos feriam-se na casca da oliveira, as ervas agudas picavam-me as pernas por baixo dos calções de licra, tentei subir, caí, voltei a cair. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã era demasiado pequena para sequer tentar.

                Como o projecto da casa da árvore teve de ser abandonado, deixando-se os barrotes a apodrecer, fundação incompleta, casa de impossibilidades, passámos ao próximo plano: o carrinho de rolimã. Só sabíamos da sua existência por causa das aventuras nos livros da Turma da Mônica, mas recebemos a notícia de que o meu pai iria construir os nossos próprios carrinhos brevemente. Fomos a uma loja de ferragens para encontrar rolamentos, encontraram-se umas tábuas velhas e o meu pai pôs mãos à obra.

                Eu levava os nossos cães a passear, soltava-os das correntes por um momento e fingia ser uma grande treinadora. Propunha-me a ensinar a rafeirada amiga a detectar drogas e açúcar em sangue de diabéticos, levando-os a ver o campo circundante com uma minúscula trela (são cães ferozes, são cães de ataque, têm de andar em trela curta, têm de ter açaime, cães de ataque, cães de ataque). Mas os cães não me obedeciam. Uma tarde semanal não era o suficiente para os ensinar, mas na altura eu não sabia, colocava-os a lutar para se entenderem, obrigava-os a estabelecer uma hierarquia impossível, depois corria tudo mal, tudo mal. Voltavam à corrente. Saltavam, ladravam, desespero por um pouco de contacto humano. Sempre na corrente, cães soltos no campo são perigosos, o campo é perigoso para eles, podem matá-los a tiros de caçadeira, podem envenená-los, podem ataca-los (cães de ataque).

                Ficou pronto o carrinho de rolimã (rolamentos, rolimã, rola, romã).

                Levámo-los para a rua mais inclinada da aldeia. Na altura não havia capacetes, nem cotoveleiras, nem joelheiras, nem caneleiras. Eu seria a primeira a descer no precário mobil construído pelas grossas mãos paternas. Não tive coragem. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã também chorou nesse dia. Também tinha medo de descer. O mais provável era o bólide desfazer-se a caminho da meta de chegada. Mas não podíamos dizer isso.

                Mas havia uma coisa, para além dos fascículos sobre a natureza, para além dos cães, para além das árvores, para além do sol que estalava a terra e impedia o crescimento das larvas. Havia a bicicleta.

                Tinha visto a mais perfeita bicicleta infantil numa loja perto da minha casa. Muito cara, muito cara, mas de todos os modos perfeita: guiador cor-de-rosa, uma cestinha na frente, selim estampado com gatos. Queria-a. Precisava de a ter. Para poder viver aventuras precisava de uma bicicleta: era assim que os miúdos dos filmes se transportavam de um lado para o outro. Portanto, o meu pai comprou-nos bicicletas. Não eram como tinha idealizado: a minha era cor de laranja e branca, um protótipo de bicla de corrida adaptado ao meu tamanho diminuto. A da minha irmã era azul, com um estampado que parecia ganga, menorzinha, apropriada ao seu tamanho de micróbio humano. Ambas tinham as rodinhas de apoio. Ainda não sabíamos andar de bicicleta, mas íamos aprender.

                Ao início correu tudo bem. Dávamos voltas ao pátio, cães ladrando, pólenes penetrando minhas narinas, alergia à humidade, voltas ao pátio nas pausas da leitura, voltas ao pátio depois dos desenhos animados. Depois aventurei-me a sair do pátio: muito complicado, a terra destruída pelo sol não era a direito, altos e baixos, subidas e descidas, as rodinhas de apoio não andavam por mais que esforçasse os meus joelhos nodosos a ir para cima e para baixo (na altura era magra, um pequeno aranhiço, na altura diziam-me que tinha de me esforçar para ser mais alta, mas os joelhos não cresciam, ficaram sempre do mesmo tamanho). Então, um dia, o meu pai decidiu mostrar-nos como guiar uma bicicleta sem as rodinhas.

                Não estava à espera, eu não estava à espera, que viesse a ter medo. Mas tive. A estrada não era igual à dos filmes, as casas não se sucediam com seus jardins frontais a uma estrada de asfalto, sempre a direito, sempre cinzenta e sempre a direito. Aquela estrada estava retalhada em buracos e buraquinhos, cheia de água da chuva, cheia de lama. Com lombas, subidas, descidas. Assim que experimentei a bicicleta sem as rodinhas, caí. Tudo terminava comigo a chorar.

                Depois crescemos e a casa na árvore apodreceu, o carrinho de rolimã foi transformado em tábuas para lenha, a bicicleta ficou algures a ganhar ferrugem, só os livros se mantinham fiéis a si mesmos. Agora tínhamos ocupações, tinha de sair cedo para andar de cavalo, tínhamos de ver os filmes que alugávamos no Blockbuster sem falta, tínhamos de gravar os desenhos animados para não perdermos nenhum episódio (não achas que já não tens idade para ver isso?), tinha de estudar matemática, tinha de treinar os meus cães, parasitados, enviesados, doentes, envenenados, tinha de fazer coisas, tinha de fazer. Esqueci os fascículos e o sol tornou-se um pesadelo. Rachas na terra, rachas na minha cabeça, sol na moleirinha até fazer derreter os cabelos. E as alergias, tantas alergias.

                Um Verão, fomos à terra. A terra do meu pai, que fica no Brasil. O ar fresco, cheiro a chuva, mitos de infância (uma vez tomei banho na chuva, com sabonete e tudo), o céu. Apenas o céu, largo, infinito, desfeito em milhares de matizes de cor. Um dia vamos pescar no rio (infância), um dia vamos ver o seminário (infância), um dia vamos. Passava grandes tardes com os meus primos, a comer melancia, a comer pastel, tomando chimarrão. O frio não era tão frio. O calor não era tão quente. O céu pleno de nimbus flácidas, que se iam desfazendo.

                Vamos passear de bicicleta?, perguntava-me a minha prima. Não sei andar de bicicleta, respondi à minha prima. Uma vez aprendi, expliquei, mas depois esqueci-me como se faz.

                Andar de bicicleta ninguém esquece.

                Com toda a paciência, foi buscar a sua bicicleta, em nada semelhante ao veículo laranja e branco onde tinha tentado a primeira vez. Maior, preparada para mais tipos de terreno. Pus-me em cima dela e ela explicou-me. O processo era simples: dar aos pedais. Mas como me equilibrar?

                Continua sempre a pedalar.

                Ela apoiou-me e eu fui andando. Ela apoiou-me e depois largou-me e eu continuei a andar. Fui dar uma volta pelo quarteirão. Tal e qual como imaginava: a estrada asfaltada, direita, as vivendas com jardins frontais, árvores na calçada deixando cair frutos do tamanho de abóboras, folhas mortas, sapos saltitando entre os raios das rodas. Fui andando, sempre andando, pedalando. Rápido, sempre mais rápido, com toda a confiança. O selim magoa um pouco as partes, mas sou rápida, como uma brisa, como uma flecha. O céu avermelhado mostra nuvens com a forma do mapa-mundi. O céu rosado derrete-se em noite, está quente mas está fresco, sinto o ar entrando para a minha laringe, para os meus brônquios, bronquíolos, alvéolos pulmonares, o céu é tão grande. Livre, sou livre.

                Caio. Desiquilibro-me e caio, joelho nodoso em cima da borda da calçada. Sangue.

                Em frente a uma casa, sentados em cadeiras de praia, dois cotas olham para mim. Riem. Riem em brasileiro.
 
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Yokan



               








 Yokan


                 Desde pequeno que me esforço bastante para não ser a causa de incómodo de alguém. Meus pais ensinaram-me que devia ser sempre discreto e cuidadoso para não magoar as pessoas à minha volta e até hoje, que já sou muito mais velho, mantenho essa regra de ouro. Por isso, quando me sento no metro com as compras aguardo sempre que todos se sentem. Assim, não roubo o lugar a ninguém.

                Às vezes as pessoas oferecem-me o lugar. Olham para mim, talvez já um pouco encurvado, talvez já um pouco enrugado, talvez já um pouco embranquecido, devem pensar que estou com dificuldades em estar no meio da multidão do metro, carregado com sacos, debilmente agarrado ao varão, procurando encontrar a porta de saída sem ser arrastado pela corrente de gente, atenção à distância entre as portas e a plataforma, takecareofiorbelongings… Mas a verdade é que prefiro estar em pé a ver alguém impedido de se sentar por mim ou pelos meus sacos de compras.

                O supermercado onde vendem a comida que o peixe gosta mais fica longe, são duas estações de metro. Por vezes, distraio-me a olhar para os pombos que estão dentro da estação, tentando perceber como entraram ali, perceber o que procuram exactamente. Por vezes tenho vontade de tirar um pouco do pão que trago nos sacos e dar-lhos, para ver se finalmente encontram o que procuram. Mas isso incomodaria toda a gente. Por vezes gostava de trazer o meu rádio portátil e ouvir aquelas belas músicas dos anos oitenta. Mas isso incomodaria toda a gente.
               
                Se me mantiver em pé, em silêncio, virado de costas, ninguém irá reparar em mim. Eu reparo nas coisas, as coisas trazem-me memórias, mas desde que ela morreu que sinto a cabeça aglutinada, como se tudo o que existe fosse um símbolo da sua antiga existência. Estou no metro e vejo um anúncio do novo concerto do Roberto Carlos e o meu primeiro pensamento é sempre “como ela gostava do Roberto Carlos”, nunca as músicas, nunca as roupas, mas “como ela gostava”, “como ela fazia”, “como ela queria”. Nesses momentos sei que tenho saudades. Impeço-me de chorar, para não incomodar.

                Quando chego a casa com as compras, compras que faço todas as semanas após a viagem de metro, a primeira coisa que faço é dar comida ao peixe. Li num guia sobre aquariofilia que comprei na altura que não se deve alimentar este tipo de peixes com muita frequência, pois eles não têm auto-controlo e comem até morrer. Depois, limpo o filtro do aquário e ajusto a temperatura. É o meu pequeno prazer semanal, ver aquela criatura minúscula, que não percebe nada, fazendo um trejeito que talvez seja de felicidade.

                Depois, como todos os dias, encomendo o jantar do restaurante e como sozinho a olhar para o peixe. Depois de ter voltado da guerra prometi a mim mesmo que apenas comeria os alimentos preparados pela minha noiva, que veio a ser a minha esposa. Mas agora ela já não está aqui, portanto não pude cumprir a promessa. Ela também tinha prometido que, enquanto eu não voltasse da guerra, que beberia sempre o café queimado. Habituou-se, nunca mais bebeu o café normal.

                Acho que também ela não cumpriu bem a promessa e que, por isso, estamos quites.

                Não tenho televisão, a casa ainda está decorada à maneira dela, cheia de quadros floridos e pastorinhas de cerâmica, de certa forma é para mim insuportável estar aqui, mas também não sei o que fazer, para onde ir, como me distrair. Portanto, sento-me na varanda a ouvir rádio, sempre baixinho, muito baixinho para não chatear os vizinhos. Ao menos quando a nossa filha ainda cá estava tínhamos alegria. Mas depois da morte da minha esposa, ainda era adolescente a garota, tudo mudou. Acabou a escola, empregou-se, saiu de casa, casou-se, teve o bebé, descasou-se… Agora está na Inglaterra.

                Vejo no mapa onde exactamente é a Inglaterra, a quantos quilómetros exactamente fica esse país. O peixe olha também para lá, provavelmente constatando que teríamos de atravessar muita água para lá ir.

                O peixe foi um presente. Um presente meu para o meu neto. Comprei-o numa loja de animais no fim da rua e fui a pé com o saquinho transparente na mão até à sua casa. A minha filha zangou-se.

                “Para que é que vais dar essas porcarias ao miúdo? Não vês que não serve para nada? Que não o podemos levar?”

                “Levar para onde?”

                Foi nesse dia que ela me disse que iam de abalada para Inglaterra, que vivia lá uma amiga que lhe ia arranjar trabalho, que vivia lá um amigo que lhe ia arranjar casa, que vivia lá mais não sei quem que ia fazer mais não sei o quê, fiquei confuso, tão confuso, olhei em volta à procura da minha esposa, mas ela não estava lá, nunca mais estaria em lado nenhum, foi assim que fiquei com o peixe.

                Depois comprei um livro de aquarofilia, porque prometi ao meu neto que ia tomar conta do peixe até ele voltar.

                O peixe está um pouco maior, come bem, tem algas de plástico no aquário e parece estar feliz à sua maneira, com o seu olhar vítreo sempre fixado em alguma coisa que está fora da minha compreensão. Como não tenho ninguém com quem falar, falo com o peixe. Mas ele nunca responde, ele nunca percebe.

                Durante os primeiros tempos após a partida da minha filha, tentei ligar-lhe para o telemóvel. Eu não tenho uma coisa dessas, só tenho o meu velho telefone fixo, um dos que não têm botões, em que ainda se disca o número. Portanto, quando ela não atendeu pensei que o telefone estivesse estragado. Chamava, chamava, ia sempre para a caixa de mensagens. Houve um dia em que deixou de chamar. Procurei um técnico, que disse estar tudo bem com o telefone. Provavelmente a rapariga tinha mudado para um número inglês, para não pagar roaming.

                Perguntei como poderia obter o número. O senhor disse que não sabia. Perguntei como poderia falar com ela. O senhor disse para falar pelo skype. Eu não sei o que é o skype. O senhor disse que se usava num computador.

                Por isso, fui à biblioteca municipal e pedi para usar um computador. Em princípio, deveria ser semelhante a uma máquina de escrever, mas devo confessar que não percebi nada sobre ele. Sabia que começava tudo com o carregar num tal de botão Onofre… Pedi ajuda e a simpática menina da biblioteca conseguiu, através do nome próprio e apelido, encontrar uma página com muitas fotografias da minha filha e do meu neto, rodeados  de pessoas que eu não conhecia, felizes, mais crescidos, com roupas bonitas, ela com um ar um pouco cansado, talvez. A menina da biblioteca disse-me que escrevesse uma mensagem para ela. Escrevi:

                “QUERIDA FILHA OLÁ DAQUI PAI TELEFONA-ME NÃO TE CONSIGO TELEFONAR”

Alguns segundos depois, para meu grande espanto, apareceu uma resposta:

“Por favor pai, qual é a tua? Estás a gritar, não se escreve assim! Não se fala mais por telefone, manda mensagem por aqui ou não fales. Quando puder falo mais, agora muito ocupada.”

A menina da biblioteca ficou a olhar para mim e eu sabia que os meus olhos se enchiam de lágrimas. Procurei, como sempre, o conforto da minha esposa e, como sempre, percebi mais uma vez que ela não existia mais. Fui-me embora. Cheguei a casa. Falei com o peixe.

Estou até este momento, mais ou menos, a tentar falar com ele. A tentar comunicar. Acho que estou a conseguir ter uma espécie de ligação, uma ligação entre algo muito velho, que sou eu, e algo muito mais antigo, que é o peixe. Sei que o devia libertar. Estudei no livro de aquariofilia que este tipo de peixe é originário da Ásia, sendo especialmente popular em lagos da China. Como levar o peixe para a China? Talvez eu próprio devesse ir para a China.

Levaria o peixe num saquinho transparente e, do centro de uma ponte em madeira num jardim de um qualquer pagode, deixaria cair todo o seu conteúdo. Depois, se a ponte fosse suficientemente alta, eu próprio me deixaria cair. Sim, cair dentro de um rio, dentro de água corrente, para ser também um peixe, escamas douradas, escamas prateadas, também eu um peixe de coração frio, sangue gelado, coração despedaçado, eu finalmente livre, sem incomodar ninguém, nadando com a corrente, rodeado de outros peixes como eu, até a voltar a encontrar, até voltar a encontrar algo de muito pequenino mas tão bom, tão bom… Coração frio, coração desfeito. Talvez já me tenha tornado num peixe agora.

Mas até as pedras. Até as pedras se sentem tão sós…


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Exercício - A Raposa e a Cegonha

 
 
 
 
 
 
 
 
  A Raposa e a Cegonha

Exercício Proposto - Uma história tradicional nos tempos modernos


                “Mas Porquê? Porquê eu?”, era o meu principal sentimento nessa época. Como é que um raposo, manhoso tal como eu, poderia ter sido enganado daquela forma, por semelhante criatura, ser que não tem os pés na terra, que vive acima de míseros postes de electricidade e moinhos abandonados, uma… Uma… Cegonha!

                Devo dizer que a minha vida ficou sumamente destroçada após esse incidente, o das taças. Eu, cobrador sénior do meu departamento das finanças, havia-me dirigido à cegonha de forma a reaver uma soma considerável, o que não haveria de ser difícil. Afinal, eu seu um raposo e, dentro destes, um bem manhoso. Mas a técnica de aposta que utilizei… As taças… Ah, senhores, como diriam os bípedes primatas, “saiu-me o tiro pela culatra!”

                E assim me vi relegado a uma posição escriturária, condenado a fotocopiar, a carimpar, a fotocopiar, a carimbar, até ao fim dos meus dias!

                A verdade é que andava realmente deprimido.

                Até ao dia em que a minha esposa, raposa, me contou a última fofoca da floresta: a cegonha, essa maldita ave de verticais pernas, havia investido o dinheiro da dívida numa loja. Uma loja… De jarras! A mim só me apetecia abandonar de vez esta floresta, pegar na raposa, nos raposinhos e nos meus tarecos e viajar para um local sem seres volantes, um zoológico talvez…

                Mas a raposa, tal como eu, é bem manhosa. Obrigou-me a sair do meu estupor depressivo e visitar a loja.

                Lá chegados, olhei a montra. Jarras, de todas a s formas e feitios, desde as simples de barro, em tudo semelhantes àquela com que me havia enganado, até jarrinhas de cristal. Entrei… No interior, senhoras de todos os tipos alados, com bico. Colocavam os seus bicos nas jarras, experimentando-as. Foi aí que tive uma ideia… Olhei para a raposa. Sorriu-me.

                “Desculpe, dona cegonha”, dirigi-me à dona da loja, “teria algum jarro que eu possa utilizar?”

                Todas as clientes olhavam para mim.

                “Caro senhor, as jarras são só para aves!”

                “Pois bem! Isso é racismo!”

                A partir daí, sempre com o apoio da minha família e do meu advogado, foi um instante até incriminar a cegonha pela falta cometida e obter uma choruda indemnização por danos morais, que incluíra até a partida das taças do início.

                E agora só me resta fazer as malas. Com este dinheiro viajaremos até à floresta negra, a visitar uma familiar da raposa.

                Por isso é bom ser raposo. Manhoso, manhoso…

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Love Hotel

Ace Drawing
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Love Hotel
 
  
                “Vamos ao Love Hotel, vai ser giro!”, disseram eles.

                A verdade é que fomos mesmo. O Love Hotel tinha aberto há poucos meses e era a nova atracção da cidade. Inspirado pelos seus congéneres japoneses, oferecia algo nunca visto neste local. Um hotel de quartos temáticos, onde casais e outras pessoas (quem quisesse, na verdade) poderiam ter uma noite divertida com várias actividades… Sim, essas actividades. No nosso caso, iríamos apenas para beber tudo o que viesse incluído no preço e experimentar dormir numa cama rotativa. Por isso, fomos mesmo.

                Quando chegámos, foi-nos atribuído a chave do quarto número IV por uma máquina automática. Um número aleatório para um número de pessoas aleatória, desejosas de fazer todo o tipo de coisas alienadas que o local tinha para oferecer. Subimos uma imensa escada rodeada por papel de parede amarelo com um padrão de losangos mais claros e chegámos a um patamar com dois corredores.

                “Casados”, anunciava um painel no da direita.

                “Solteiros”, anunciava um painel no da esquerda.

                Rindo muito, achámos que o nosso corredor seria o da esquerda. Começando a avançar em busca do nosso quarto, ainda rodeados pelo tal papel de parede foleiro, descobrimos que a porta número IV era a primeira. Por isso, colocámos a chave, pendurada num porta-chaves quadrangular, paralelepípedo branco. Entrámos. Lá dentro, ainda o mesmo papel de parede.

                Depois, não recordo bem o que se passou. O quarto não tinha janelas e deixara de ter porta. Não tinha nem um móvel. Começou a descer como um elevador e a próxima coisa que sei é que estávamos num lugar novo.

                Ao início foi difícil de nos habituarmos. Mas agora estamos tão bem integrados que já mal falamos uns com os outros. Fizemos novos amigos e acho que os outros nem se lembram bem do lugar de onde viemos. Na verdade, acho que ninguém se lembra bem do lugar de onde veio, porque nenhuma das pessoas que aqui vive nasceu neste sítio. Quando questionados de onde vieram, todos referem alguma coisa sobre o Love Hotel. Mas parece que já não interessa muito a ninguém. Todas as pessoas trabalham com um minério estranho que vem da montanha próxima, uma espécie de lápis lazúli que se apresenta em calhaus perfeitamente redondos. Compram-no, vendem-no, trocam-no por comida. Mas ainda não descobri para que serve exactamente.

                Para além destas pessoas, há os homens-pássaro. Eles vivem no topo da montanha e podemos vê-los a voar sobre a cidade. São homens com asas em vez de braços, garras em vez de pés, bicos em vez de bocas. Os olhos são humanos e podemos distinguir os géneros porque as mulher-pássaro têm seios, também eles cobertos por penas coloridas. Há homens-pássaro de várias cores… Amarelos, azuis, vermelhos… Às vezes pousam, mas não devemos tentar comunicar com eles, pois são agressivos. Nos primeiros tempos tentei falar com um deles, uma mulher, mas o grito com que me respondeu ensurdeceu-me e aterrorizou-me. Podia ver o seu grito no fundo da garganta, como um vómito branco, pastoso, grumoso, redemoinhando em direcção à glote muito laranja, tremendo de emoção. Nunca mais falei com estas criaturas.

                Ninguém parece dar-lhes muita atenção, de qualquer forma. Excepto quando atacam um transeunte qualquer e o levam pelos ombros para os seus ninhos, onde certamente o comerão vivo.

                Passou algum tempo e o meu cabelo ficou azul, como as pedras que fazem movimentar a vida nesta cidade. O vestido que trazia cortava-me a circulação dos braços e por isso arranjei roupas novas. Aqui, andam todos vestidos com longas túnicas brancas e faixas à volta do pescoço, de várias cores… Amarelas, azuis, vermelhas… Por mim, consegui arranjar uns calções e uma t-shirt de alças. Sinto-me completamente diferente do que era antes de ir para o Love Hotel e ter vindo aqui parar.

                Houve uma vez que consegui voltar. Estava no quarto do papel de parede dos losangos outra vez. Mas tinha-me esquecido de alguma coisa na minha nova casa e voltei para trás. Quantas vezes me arrependo…

                Mas agora passa-se algo extraordinário. Vim com algumas amigas do passado, aquelas que tinham vindo comigo para este sítio, para uma oficina. Viemos para partir algumas pedras azuis em pedras azuis um pouco menores e estávamos nesta actividade quando eu encontrei, escondido debaixo de um pano muito sujo, um velho teclado polifónico da Casio. Recordei que, na altura, não sabia tocar piano. Mas que gostava de tentar. Então tentei. Comecei a tocar uma música conhecida e todas as minhas amigas começaram a rir. Ia parar, porque estava a tocar muito mal e tinha vergonha, mas olhei para o tecto e vi algo que reconheci. Era um pequeno paralelepípedo branco.

                “A chave! A chave para voltarmos para casa!”

                Elas olharam para cima e perceberam tudo. Começaram a subir para cima das mesas para tentar apanhar o objecto, mas ele voltava a integrar-se no tecto.

                “Toca mais, toca!”

                “Mas eu não sei tocar!”

                “Faz barulho, qualquer barulho, toca uma merda qualquer!”

                Então eu fiz barulho. Mexi nos botões todos, para fazer as teclas soarem como flautas, violinos ou vibrafones. Toquei com os cotovelos. Comecei a cantar. Gritei, também. E o paralelepípedo começou a cair e, com ele, todo o tecto começou a desfazer-se, qual serpente quadrilátera, composta de centenas de poliedros.

                As minhas amigas apressavam-se para apanhar tudo aquilo.

“São todas chaves! São todas chaves, podemos todos sair daqui! Todas as pessoas podem voltar para casa!”

Parei e pus a mão no bolso. Senti uma forma, já bem conhecida. Eu tinha a chave. E eu sabia como a usar, já que era a única que tinha conseguido sair antes.

“Tens de nos ensinar a usar as chaves!”

Podia ouvi-las à minha volta, mas corri para a rua. Corri pela rua. Corri através da rua. Eu ia usar a minha chave antes de todo. Estava ansiosa por voltar. Estava ansiosa por todas as coisas que ia poder fazer no Love Hotel.