sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Desafio de Escrita - Segredinhos

@Pixiv


Desafio de Escrita #2: 
Tema: "Segredo"
Data: Final de Outubro
300 palavras
Segredinhos

                Éramos meninas, era a primária. Recreio e eu sentia os grãos de gravilha a estalarem por baixo da sola de borracha das minhas sapatilhas, acocorada no meio do campo, observando as pedras, o cimento, o calor das pedras e do cimento. A minha amiga correu para mim, seu cabelo loiro esvoaçando de energia, acocorou-se ao meu lado e observou comigo.

                “Tenho um segredo para te contar.”

                “Tenho um segredo, não podes contar a ninguém.”

                “Não podes contar a ninguém, nunca.”

                Senti os seus lábios húmidos da baba do lanche a tocarem a minha orelha. Senti um arrepio que me percorreu a cabeça até ao cérebro. Tinha horror, horror aqueles lábios que se moviam em palavras que eu nem sequer entendia. Era um segredo muito comprido e não ouvi nada, ouvia os rapazes a jogarem à bola, as meninas a jogar ao elástico, ouvia os pássaros e o restolhar das folhas das oliveiras, ouvia os gritos das crianças mais pequenas, as brincadeiras, ouvia tudo. Tudo menos o segredo.

                “Prometes que não contas a ninguém?”

                Prometi.

                “Jura que não contas a ninguém.”

                Jurei.

                No recreio seguinte, o último antes de irmos para casa, procurei a minha amiga. Já me tinha esquecido do segredo que não tinha ouvido e queria brincar com ela aos animais, nós gostávamos de fingir que éramos animais arborícolas e subíamos às árvores. Encontrei-a rodeada de rapazes, a chorar, a chorar. Olhou para mim e o seu grito assustou-me a ponto das lágrimas me fugirem.

                “Contaste o meu segredo a toda a gente!”

                Nunca mais brincámos aos animais.

                Até hoje não sei qual era o segredo.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A Criação do Mundo

A Criação do Mundo e a Expulsão do Paraíso
Giovanni di Paolo










A Criação do Mundo

Ando por cima do brilho do sol
Gotas de luz desfazendo-se nos meus dedos
De suas migalhas nasce então a criação do mundo.

Se no início era o nada,
Então eu era tudo.
E no meu sonho
Decidi criar.
Primeiro apareceu o dia e a noite
Por isso apareceram também o sol e a lua
E logo por isso apareceram todos os deuses
Não tinha lugar onde ficar.
Por isso inventei a água e a terra e logo veio a sopa primordial
E moléculas
E os monera
E os eucariotes
E quando dei por mim olhava para a rosa vermelha de3pendurada na grade branca do quintal
E olhava para a vespa que a polinizava e se alimentava das larvas de mosquito
E olhava para as larvas contorcendo-se na lama de um ralo entupido
E quando dei por mim existia já a árvores e os espinhos,
A pedra e a esmeralda,
O rio e a nuvem,
A montanha e a areia,
O homem e a mulher e outra coisa qualquer.
Com isso nasceram os animais e eu nasci entre eles
Vi o mundo que havia criado
O austrolopiteco,
A criação do instrumento,
A charrua,
A corrente,
A cruz,
Os pregos,
A fogueira,
Homens ordenados em fileira.
Andei entre eles e toquei-lhes as faces, como se eu fosse o vento
Não sabiam que eu os tinha criado
Gritavam pelos deuses,
Quando eu nunca inventei os deuses.
Mas quando existe o mundo
Existe sempre tempo.
E o tempo passou
E continuei a ver o mundo que tinha criado
Os escravos,
Os bacamartes,
A auto-ajuda,
O LSD,
A vacina para a hepatite,
O vírus do HIV,
A mini-saia,
O rádio Hi-Fi,
O super-herói,
O filme de acção,
O género Noir,
E a televisão,
E as pessoas continuavam ordenadas
Andei entre elas e toquei-lhes
Percebi que já não havia deuses
E que brevemente nem pessoas haveria.
Eu criara este mundo
Porque queria ver a rosa vermelha
Porque queria ver a abelha
Mas no mundo que eu criei, já ninguém queria ver nada.

Rolo na palma da mão uma pedra azul.
Fria, a pedra azul.
Será que a partir do momento em que dizemos uma coisa em voz alta
Ela passa a fazer parte
Da nossa existência?
Tenho a certeza que mesmo eu,
Mesmo eu
Mesmo eu
Não passo do sonho nocturno de uma princesa.
 


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desafio de Escrita - Soluto

Pixiv Id 1052836 #1128774


Desafio de Escrita #1: 
Tema: "Recomeços"
Data: 1 de Outubro
250 palavras







Soluto

                Reinicio o processo. Já foram quantas vezes? Não sei. Não sei, mas não vou desistir. Tenho a certeza que encontrarei a fórmula correcta, se obedecer ao método científico. Utilizei-o uma e outra vez, outra vez, outra vez, mas ainda não me saiu bem. Vou tentar de novo.

                Aqueço o solvente. Bico de bunsen com chama gaseificada, no frasco de vidro crescem as bolhas, espessas e perigosas, rebentam e saltam os salpicos. Mas eu tenho todo o cuidado, na hotte é preciso ter todo o cuidado. As luvas funcionam, a bata funciona, os óculos e a máscara de protecção, tudo funciona. Muito cuidadosamente, adiciono o soluto. Sei que a fórmula do soluto está correcta. Tenho a certeza absoluta, embora ainda não tenha tido provas concretas. Com toda a precisão, deixo cair as microgramas do soluto, pequeníssimos grãos brilhantes, salinos. Misturo.

                A solução reage. Reage! Um pequeno espasmo de líquido, mil microscópicas gotas, a espuma, a espuma que pousa numa água de mil cores! Sim! Panaceia universal, conseguida após tantos recomeços!

                Levo-a para a refrigeração, tomando o frasco nas mãos como se da mais delicada planta se tratasse. Não consigo conter a minha excitação. Apetece-me dar saltos no ar, rodopiar, cantar, cantar…!

                Não!

                Tropeço. Caio. No chão se desfaz o frasco, a solução desaparece pela magia da evaporação.

                Bolas. Lá terei de começar outra vez.

domingo, 25 de junho de 2017

A Ilha Maravilhosa

Foto tirada numa ilha maravilhosa, circa 2017










A Ilha Maravilhosa

                Sou uma criança e depois de ir aos concertos vi-me a brincar na ilha maravilhosa. A ilha não se chama assim, mas é o nome que lhe dou porque ela é, realmente, uma maravilha. Da entrada da ilha, no topo da montanha, desço por escadas de pedra negra, entalhadas na floresta, até chegar a grutas cheias de esconderijos, rodeadas por flora exuberante, verdejante, tudo é verde e tudo é azul porque a floresta se une ao mar. Mar brilhante, transparente, tocando na erva florescente numa baía. As pessoas apanham sol, as pessoas protegem-se do sol na sombra das montanhas que rodeiam o mar. Eu, eu por mim brinco. Brinco ao elástico e o elástico é um círculo mágico de símbolos brilhantes de onde nascem fadas. Estou com os meus amigos e os meus amigos são crianças, nunca os vi antes mas eles são meus amigos, todos somos crianças.

                Ela tem o cabelo loiro entrançado, desde o topo da cabeça até à cintura. Ela é um pouco gorda e tem calções de ganga e uma t-shirt da Minnie toda suja, que mal lhe cobre a rotunda barriga parasitada e aquosa.

                Ele tem a pele morena e a cara comprida, cavalar, cabelo escuro e denso. Ele tem calções de ganga e uma t-shirt branca toda suja, demasiado comprida, que lhe cobre o torso macilento e ossudo. Ele tem uma máquina fotográfica e quer tirar-nos fotos na ilha maravilhosa, mas a minha roupa não é boa para fotografar, as sapatilhas brancas, a saia comprida de bombazine cor de rosa, a blusa com folhos cor de rosa, os meus cabelos longos e negros e longos e negros, oleosos pela seiva das plantas, orvalhados pela humidade do ar.

                “Porque não tiras fotografias à ilha?”

                “Porque a ilha não é interessante, só tem aquelas fumarolas”.

                Fumo sai de pontos estranhos das montanhas, como se a floresta estivesse em chamas, pequenos incêndios localizados que são apenas o bafo da terra, cheio de enxofre e tóxicos. Estão lá longe. Aqui faz frio.

                De repente, o meu amigo salta para a frente. Alguma coisa aparece na baía e essa coisa parece ser motivo de maior para se tirar fotografias. Uma coisa. Uma coisa enorme. Sáurio potente, escamoso, escuro, de patas triangulares, com um enorme chifre no focinho diabólico, todo ele cheira a mar e enxofre, todo ele cheira às baleias que caçámos com arpão na falésia, todo ele cheira ao sangue mordido pelos cães de água, o monstro é o ventre da baleia morta, o monstro é a cria da baleia morta que não nasceu porque matámos a baleia, a baleia está morta.

                Claro que como isto é a ilha maravilhosa, claro que o monstro é um monstro da paz e nada de mal fará a ninguém. Todos correm para o ver e as pessoas que apanham sol à beira da água levantam as cabeças. De onde estou parece que o monstro gigantesco é do mesmo tamanho das pessoas, ele muda de tamanho conforme as pessoas mas ainda assim é enorme, enorme como a própria ilha. Inclina a focinheira de narinas latejantes sobre um banhista e, boca de rodas dentadas, beija-lhe a cabeça, morde-lhe a cabeça, absorve o seu corpo, a sua alma, brevemente o banhista é só um saco de pele e ossos.

                Só aí é que as pessoas gritam e todos tentam fugir.

                O resto é muito rápido. Todas as pessoas sofrem o processo de absorção, o monstro cresce e diminui, as pessoas morrem e são sangue e ossos e são sacos de plástico pretos, são sacos do lixo perdidos na poluição do mar, só faltamos nós, só faltamos nós, grito para a minha amiga entrar na gruta, escondo-a numa reentrância coberta de ervas daninhas todas secas. Eu escondo-me ao lado, junto a uma parede de estalagmites, poças de água e musgo tumefacto. O monstro aproxima-se e o seu cheiro é marinho, o monstro aproxima-se e eu penso “come, come a minha amiga, come-a toda, papa-la”, mas é a mim que ele me come, morde-me a cabeça e arrasta-me, eu gritando pelo chão, eu vejo-me a ser transformada num saco e o monstro labe os beiços e caminha para dentro de água, a sua cauda cianótica suja de fezes abanando de felicidade pela chacina.

                Mas eu ainda estou na gruta. A minha amiga foge, foge pelas escadas acima e à minha frente fecha-se a porta de uma cabine telefónica. Abro-a. Corro atrás da minha amiga, suas tranças abanando, eu gritando “ainda aqui estou, ainda estou viva!”

                Chego a ela, ela está a tentar abrir as portas de vidro que nos darão acesso ao metro e nos permitirão fugir da ilha (maravilhosa ilha, maravilhosa), eu grito “espera por mim, ainda aqui estou, ainda estou viva!”, e toco-lhe, abraço-a por trás, mas quando lhe toco não toco porque eu já não existo, minhas mãos atravessam as tranças loiras, meu corpo passa pelo meio da barriga porcina, meus cabelos negros misturam-se com a carinha torta e pálida da minha amiga e eu grito “ainda aqui estou, ainda estou viva!”, mas não estou porque a minha voz não existe e eu morri quando o monstro me arrastou pelas ervas e agora o meu corpo é nada, resta apenas o que eu sou, mas ninguém pode ver isso.

                Ela atravessa as portas automáticas, que finalmente se abrem. Oiço o metro a chegar ao longe. Ela corre, as portas fecham-se. Não as posso atravessar.

                Só eu, só eu aqui. Eu na ilha maravilhosa.

domingo, 7 de maio de 2017

Chemo

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Chemo


                Apesar de tomar banho todos os dias, só lavo a cabeça duas vezes por semana. Não tenho tempo, não tenho paciência: o meu cabelo é demasiado comprido e cheio. Preferível andar com ele sempre preso, num rabo-de-cavalo ou, ainda melhor, num coque. Assim, não perco por aí um milhão de caracóis e outros cabelos fugitivos. No entanto, nessa manhã em que fazia os meus vinte e seis anos, pensei que queria lavar a cabeça.

                Estava a lavá-la, ainda cheia de sono, mal acordada de uma noite de excitação (afinal, estava prestes a fazer anos!), quando reparei que algo estava errado com o meu corpo. Olhei para o meu peito e, no centro, precisamente no meio do esterno, estava uma coisa redonda. Não entrei logo em pânico, penso eu. Ainda estava demasiado adormecida para entrar em pânico. Mas quando me vi ao espelho, reparei que alguma coisa estava realmente errada. Uma bola, uma massa, como um terceiro seio. Ali no meio. Coberto por pele. Duro. Carreguei-lhe: não doía. Podia senti-lo a mover-se ligeiramente, se lhe tocasse. Pensei, claro, que poderia aguardar que o meu dia de aniversário terminasse. Podia ser que passasse durante o dia. Se lhe pusesse um pouco de gelo. Se lhe pusesse um pouco de voltaren ou fenergan. Provavelmente era uma borbulha, uma reacção alérgica exagerada.

                Mas quando fui por o sutiã, percebi que tinha de tratar do assunto imediatamente. O meu corpo estava mutado e não poderia passar o aniversário assim. Estava feia. Ninguém merece estar feio no dia de anos.

                Chamei a minha mãe, que estava na cozinha a preparar um bolo de chocolate. Nem sequer gosto muito de bolo de chocolate, mas queria deixá-la participar nas celebrações da forma que mais lhe apetecesse. Enfim, ela apareceu e imediatamente interrompeu as suas actividades culinárias para me levar ao hospital. Podia ser algo muito grave!

                Deram-me uma pulseira verde nas urgências. Chegámos lá… Seriam umas onze horas da manhã. Anoitecia quando fui atendida. Imediatamente, fizeram uma série de requisições para exames, sem sequer olhar muito para o objecto que tinha crescido no centro do meu peito. Eu perguntava-lhes se não podiam simplesmente arranca-lo. O meu dia, o meu dia especial: arruinado.

                Passados alguns dias, vieram os resultados. Pediam-me para marcar uma consulta na oncologia. Oncologia? Porquê? Eu era, eu sou!, demasiado nova para ter um cancro! Deve haver algum engano!

                A médica mostrou-me os resultados dos exames. Passava-se algo de incompreensível comigo: de um dia para o outro, havia-me crescido uma massa que, certamente, era tumoral. Porque normalmente as massas que crescem nos corpos das pessoas são tumorais. Mas os exames feitos, o raio-x, a tac, a biópsia, revelavam que a estrutura desde objecto estranho era muito especial. A médica conseguiu apenas descrevê-lo como “aparenta ter a estrutura de um caroço, como um caroço de abacate, quer na forma macroscópica quer no exame histopatológico da biópsia.”

                “Vamos ter de o tirar, mas primeiro temos de o reduzir. Vamos hoje falar do seu plano para quimioterapia.”

                Ao início recusei-me. Continuava a acreditar que o tal caroço de abacate desapareceria se aguardássemos. Mas quando contei o resumo da consulta à minha mãe, ela entrou em pânico. O pânico que eu ainda não tinha passou de imediato para ela e ordenou-me, sem mais questões, que fizesse exactamente o que os médicos diziam.

                Assim começou o meu tratamento.

           Eram comprimidos, era medicação injectável. Ao início não custava, claro, mas depois começaram os efeitos secundários. O primeiro foi a náusea. Não conseguia comer nada, tudo me deixava a boca seca, como se estivesse a comer cartão. Quando comia alguma coisa, o meu estômago revoltava-se e ordenava-me que corresse para a casa de banho, onde eu expelia os pedaços de alimentos meio mastigados, misturados numa gosma amarelada, que borbulhava no fundo da sanita como uma poção de bruxedo. Mas, graças ainda a outra medicação injectável, comecei a tolerar melhor os alimentos. Descobri coisas novas sobre as minhas preferências alimentares. Passei a gostar de grelos. Passei a detestar gelados. O caroço de abacate no meu peito continuava exactamente na mesma.

                Comecei a reparar que outras alterações aconteciam com o meu corpo. Frieiras nos dedos, das mãos e dos pés, como se o músculo dentro da pele de repente inchasse demasiado e se quisesse libertar. As minhas unhas negras, frágeis. Um dia começaram a cair. E o cabelo. Também começou a cair. Acordei um dia e tinha uma enorme mecha de cabelo, como a cauda de um animal, solto na almofada. Quando lavei o cabelo nesse dia, caiu quase todo. Chorei. A minha mãe levou-me a um cabeleireiro para rapar a cabeça. Depois fomos comprar uma peruca. Perucas caras, de cabelos naturais, cabelos vindos de cabecinhas rapadas na Ásia ou noutro sítio qualquer. Tudo aquilo me parecia deprimente. Eu que sempre me tinha queixado do meu cabelo demasiado grande e volumoso, agora era uma careca em busca de uma cabeça falsa. 

                A minha mãe acabou por escolher uma para mim. Era parecida com o meu cabelo original. Foi cara, muito cara. Mas a minha mãe apenas me queria ver feliz naquele momento. O que me faria mais feliz seria ver-me livre do caroço de abacate sem ter de passar por todas aquelas coisas. Afinal, que mal pode fazer um caroço de abacate? Houvesse um sutiã com três bolsas e talvez pudesse viver com ele para sempre. Ou talvez crescesse um abacateiro no meu peito.

                Na rua usava sempre a peruca. Na oncologia tive um workshop de amarrar lenços na cabeça e passei a usar isso em casa. Via-me ao espelho com o lenço e reparava que a minha cara de vinte e seis anos tinha envelhecido décadas em poucos dias. Eu emagrecia e as minhas bochechas desapareceram. Eu emagrecia e as olheiras aumentavam, em grandes papos violetas.

                Ia ao hospital frequentemente. Os médicos não sabiam explicar porque é que, apesar de todos os tratamentos, o suposto caroço de abacate não desaparecia nem diminuía de tamanho. Com a dimensão que tinha, era demasiado perigoso operar, para se proceder à extracção.

                Comecei a fazer radio. Radio como em radioterapia, não como em estação FM. A pele de toda aquela zona ficou negra e começou a cair em pedaços. Era carne viva e, por baixo, conseguia ver a cor da minha massa e um bocadinho da sua textura. Era exactamente como tinham descrito: um caroço de abacate.

                Mas, apesar de tudo, não diminuiu.

                Portanto, tenho de continuar a fazer quimio, a fazer radio, a fazer de tudo. Quero parar, mas a minha mãe não deixa. Pensam que é um cancro, um cancro de mama. Pode metastizar para o pulmão, para o fígado, para o esófago. A minha mãe não quer que eu morra, claro. Eu também não quero morrer, claro. Mas ninguém me ouve quando tento explicar que esta coisa é absolutamente inofensiva. É um abacate, não passa de um abacate. Tenho de continuar a vomitar, a emagrecer, com partes do meu corpo a cair, tudo por causa de um abacate.

                Não é ele que me vai matar, penso. Acho que é a cura que me vai matar. O coração já começa a dar de si. Talvez depois de eu morrer possam fazer a excisão da massa e aí saberão que eu sempre tive razão.

                Por enquanto, aguentar a cura. Mas tenho a certeza que me vai matar.