quarta-feira, 18 de julho de 2018

Desafio de Escrita - Noventa e Nove Camas

"COMING OUT OF THE DARKNESS", Jason and Jamie Burgess
Desafio de Escrita #10
Tema: O cliente da cama nº.99
Data: 31 de Julho
300 Palavras (ultrapassei um bocadinho)
Noventa e Nove Camas
 
                Oiçam, oiçam, a porta abriu-se! A porta abriu-se? A porta abriu-se! Vem aí mais um, vem aí mais um para ao pé de nós!
                Mais um… Mas só há mais uma cama. Vejo ao meu lado que só há mais uma cama. Tu vês? Não, eu daqui não consigo ver. Consegues ouvir-me? Grita! Grita para chegar ao fundo da camarata! Só há mais uma cama! Só há mais uma cama! É a cama noventa e nove, é a cama noventa e nove, já somos noventa e nove!
                Fantástico, noventa e nove. Temos de celebrar! Onde está o da cama um? Cama um? Cama um? Não, eu estou na cama quarenta e dois e para aqui só há silêncio! Eu estou na cama vinte e cinco e para aqui só há silêncio também! Devem estar mortos, o da cama um e o da cama dois. Pois, já chegaram há tanto tempo… Quando eu cheguei já cá estavam! Quando eu cheguei já cá estavam e eu nunca os ouvi falar! O que será que o da cama noventa e nove tem para nos dizer? Como estará o mundo lá fora?
                Alguém se lembra porque é que eu estou aqui?
              Não percebo quem és tu, não te sinto o cheiro. Ah, mas eu às vezes toco na cara do meu vizinho, o da cama setenta e um e conhecemo-nos assim. Nunca há luz, também, que chatice, podiam abrir uma janela…. Não, não. Não! Nem pensar! Não! Nunca acenderam a luz, já nem me lembro o que é a luz, quando eu cheguei já cá estavam os da trinta e oito e da cinquenta e quatro sempre a chorar, a pedir luz, a pedir luz? Calma, tenham calma, eles não vão acender as luzes.
                Estou a ouvir, a porta abriu, a porta abriu! Vem aí o da cama noventa e nove? Vem? Vem! Olá. Olá. Olá. Olá. Não vale a pena dizermos todos olá, ele percebe. Olá.
                Olhem, estão a ver aquilo lá ao fundo? Parece um quadrado! É a porta? A porta? Existe uma porta?
                Não acendam a luz!

domingo, 1 de julho de 2018

Desafio de Escrita - De passo em passo

"Jogos Infantis", Pieter Bruegel









Desafio de Escrita #9
Tema: Quando a terra tremeu
Data: 30 de Junho
300 Palavras


De passo em passo

                De passo em passo, de salto em salto, evito todas as partes brancas da rua. Piso apenas as sombras, as pedras da calçada que são pretas. Alcatrão, piso alcatrão. As pedras brancas, os mármores, as partes que brilham com o sol, nessas não posso pisar. O que acontece se eu acidentalmente lhes tocar?
                De salto em salto, de sombra em sombra, olho para trás e vejo os meus pais, os meus pais que são a luz do sol demasiado brilhante nos meus olhos. Uma tontura devido ao calor, apertar bem os olhos para focar os dois, os meus pais, o barulho de uma cigarra que se levanta do meio das palavras dos outros, dos gritos das outras crianças, das lambidelas em gelados e cães que passeiam.
                De sombra em sombra, de pedra em pedra, o barulho do salto baixo da minha sandália que se quebra nas partes negras, olhar para trás (onde estão os meus pais?) e deixar de ver, a pala do boné da Expo 92 que não faz nada para me proteger do sol, olhar para trás e os meus pais. Desequilibro-me. A minha sandália toca na pedra branca, calçada branca, acabou a brincadeira e o chão quebra-se à minha volta, todas as partes negras se estilhaçam como vidros ou como o gelo escuro dos rios, todo o chão se parte e eu ali, segura na calçada branca enquanto os meus pais estão lá ao fundo, debaixo do sol, afastando-se.
                Acabou-se a brincadeira e a minha mãe vem buscar-me. Choro, choro copiosamente e dói-me o tornozelo porque pousei mal o pé. Uns dias mais tarde, o meu pai foi viver com a Ana.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Desafio de Escrita - Elevador

"Mammon", Collin de Plancy's Dictionnaire Infernal
Desafio de Escrita #8
Tema: Quando sairmos daqui...
Data: 31 de Maio
300 Palavras
Elevador
                Quando sairmos daqui… Quando sairmos daqui? Mas como assim? Minha querida, não minha querida, nem todos vão sair daqui. Boa questão a tua… A verdade é que quando este elevador parar, tu vais sair daqui. Sim, só tu. Eu vou voltar para cima, para o andar das pessoas como tu.

                No andar de cima ficava o teu mundo, estás a ver? Infelizmente, agora estamos numa descida muito íngreme. A partir do momento em que decidiste entrar naquele negócio, tu sabes qual é, foi a partir daí que o meu mestre te condenou. Pois que o meu nome é o do dragão vermelho e o meu mestre é Mammon. Vais ver que vais gostar dele, tal como ele gosta de ti. Também eu fui uma pessoa como tu, a fazer negócios, tira, põe, fica sempre com mais para ti, tudo isso até ao meu acidente. Agora o meu mestre é Mammon e vais ver que vais gostar dele. Vai ser o teu mestre também.

                O que eu faço aqui é levar os fiéis dele para o andar de baixo, depois de lhes acontecerem os acidentes, claro. Pessoas vivas não podem vir para aqui, que horror! Não bastou já quando veio aquele mariconso do Orfeu, com a lira e quês…? Ah, estás a querer saber do acidente? Pois é, estás morta minha querida, morta, enterrada e a caminho do inferno. Acontece a quase todos.

                Afinal, a descer todos os santos ajudam.

domingo, 15 de abril de 2018

Desafio de Escrita - O grito que não era meu

"O Grito", Edward Munch










Desafio de Escrita #7
Tema: A Voz Que Não Era Sua
Data: 30 de Abril
300 Palavras
O grito que não era meu

                São os olhos fechados de quem está a dormir e foi com esses olhos fechados que adormeci. Abrem-se agora e posso observar o súcubo que criou raízes num canto do tecto, as suas mãos largas espraiando-se em sombras e o sorriso carnívoro, muitos dentes triangulares.

                “Vai-te embora, não me vais possuir mais”, é o que digo. O súcubo roda a cabeça e num estampido desaparece. A pressão que havia no quarto começa a desaparecer e, aliviada, preparo-me para adormecer de novo. Espero agora que não haja mais sonhos, esses pesadelos eróticos que me atormentaram durante todos estes anos. Descobri o demónio que me andava a comer os sonhos e os defecava sob a difusa forma de uma égua nocturna, cavalgando por cima de todos os meus terrores.

                No entanto, volto imediatamente a acordar. O meu corpo, o meu corpo! O meu corpo está paralisado! Tento rebolar para fora da cama, tenho a certeza que ainda estou a dormir. Tenho de acordar e, por isso, tento rebolar para fora da cama. Rebolo e caio, mas caio em cima da cama, uma e outra vez, de novo, de novo, esforço-me por abrir os olhos e de repente, qual roupa pendurada num puxador de armário, está lá uma pessoa morta. Uma pessoa morta, pendente, num vestido espectral. Nessa altura consigo gritar mas o grito, quem grita é a morta, a minha voz é a voz da morta e toda a minha garganta é sangue dos arranhões. Luto para me libertar, mas as mãos apertam-me o pescoço e as unhas arranham-me e o sangue afoga-me, não interessa porque a minha voz não é minha, a minha voz está na pessoa pendurada no armário e eu estou morta, eu estou morta, eu estou morta?

                As mãos da minha mãe abanam-me e trazem-me de volta. O mundo real. A pessoa morta era só um vestido pendurado no puxador da porta do armário. E eu sou só eu. Parece que o súcubo ainda não se foi embora.

domingo, 1 de abril de 2018

Desafio de Escrita - Labirintite

Desafio de Escrita #6
Tema: Labirinto
Data: 28 de Fevereiro
300 Palavras
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Desafio de Escrita - Mercedes deu-me um pontapé

Mercedes, Garcia Bravo










Desafio de Escrita #7
Tema: Uma Pessoa do Passado
Data: 31 de Março
300 Palavras
(atrasei a data e ultrapassei o limite, desafio não cumprido)

Mercedes deu-me um pontapé

                Mercedes deu-me um pontapé e eu chorei. Foi grave, os seus sapatos eram brancos e bicudos, com salto e pele bovina, sapatos de adulta para uma criança patuda, sapatos que a mãe empresta para a festa, eram fortes, eram duros, doeu muito. Ficou uma nódoa negra tão grande, potencial abcesso, que o meu pai fotografou para fazer queixa à escola.

                Revelaram-se as fotografias quando já todos tinham esquecido o caso. Mercedes nunca recebeu ordem de suspensão ou expulsão e manteve-se tal como era, gorda e evidente, dominando todas as danças infantis e pontapeando as crianças mais passivas. O tempo foi passando e mudámos todos de turma, fui perdendo Mercedes de vista nos corredores da escola. A rapariga crescia, é claro, como todos nós, mas a sua forma curvilínea nunca deixava de arredondar e o seu sorriso sempre tinha uma sombra de gordura.

                Continuava a vê-la, cada vez maior, cada vez mais expressiva na sua vontade de dominação, até que saímos todos da escola. Depois disso, foi rápido até nos esquecermos todos uns dos outros e começarmos uma nova vida. Esqueci o pontapé e esse dia em que chorei.

                Claro que, passado uns anos, a nostalgia da recordação infantil regressa e, por isso, fazem-se esforços para organizar encontros, jantares e almoços, coisas do género. Nessa altura, lembrei-me de Mercedes e do seu sapato branco. Será que se a encontrasse de novo a poderia humilhar, defender-me tardiamente do ataque inusitado de que havia sido vítima? Fantasiei sobre este assunto e pratiquei várias versões do diálogo do confronto, tudo na minha cabeça. Pensei que poderia abrir logo as hostilidades acendendo um cigarro (chocante fumar cigarros, pensava eu) e dizendo “continuas gorda, Mercedes”, ou algo igualmente agressivo.

                “Continuas gorda, Mercedes, és um mamute, Mercedes, és uma besta, Mercedes, merecias um pontapé nessa cabeça gorda, Mercedes, odeio-te, Mercedes, ainda te posso odiar, Mercedes, pede desculpa, Mercedes, eu ainda tenho as fotografias, Mercedes, Mercedes, Mercedes, fode-te, Mercedes, Mercedes, merdas de Mercedes.”

                A antecipação do jantar oficial da quarta classe abria-me o sorriso e eu sentia os meus caninos desejosos de provar a carne tenra da ofensa, a vingança gelada do palavreado ensaiado. Mas, lá chegada, que é de Mercedes? Estavam lá todos, a Barroso, os Brunos, a Chiquinha, todos. Mas que é de Mercedes?

                Informou-me a rede social que vive agora no Dubai ou noutro lugar igualmente estranho. Vi as suas fotografias. A sua cara redonda, menos gorda, mais curvada, vive agora coberta pelo manto do respeito muçulmano. Continuei a vê-las, Mercedes feliz, Mercedes cheia de vida e cheia de tudo. E, mais abaixo, uma fotografia de infância. Com os sapatos brancos. E continuo sempre a recordar-me de quando Mercedes me deu um pontapé e eu chorei.