domingo, 7 de maio de 2017

Chemo

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Chemo


                Apesar de tomar banho todos os dias, só lavo a cabeça duas vezes por semana. Não tenho tempo, não tenho paciência: o meu cabelo é demasiado comprido e cheio. Preferível andar com ele sempre preso, num rabo-de-cavalo ou, ainda melhor, num coque. Assim, não perco por aí um milhão de caracóis e outros cabelos fugitivos. No entanto, nessa manhã em que fazia os meus vinte e seis anos, pensei que queria lavar a cabeça.

                Estava a lavá-la, ainda cheia de sono, mal acordada de uma noite de excitação (afinal, estava prestes a fazer anos!), quando reparei que algo estava errado com o meu corpo. Olhei para o meu peito e, no centro, precisamente no meio do esterno, estava uma coisa redonda. Não entrei logo em pânico, penso eu. Ainda estava demasiado adormecida para entrar em pânico. Mas quando me vi ao espelho, reparei que alguma coisa estava realmente errada. Uma bola, uma massa, como um terceiro seio. Ali no meio. Coberto por pele. Duro. Carreguei-lhe: não doía. Podia senti-lo a mover-se ligeiramente, se lhe tocasse. Pensei, claro, que poderia aguardar que o meu dia de aniversário terminasse. Podia ser que passasse durante o dia. Se lhe pusesse um pouco de gelo. Se lhe pusesse um pouco de voltaren ou fenergan. Provavelmente era uma borbulha, uma reacção alérgica exagerada.

                Mas quando fui por o sutiã, percebi que tinha de tratar do assunto imediatamente. O meu corpo estava mutado e não poderia passar o aniversário assim. Estava feia. Ninguém merece estar feio no dia de anos.

                Chamei a minha mãe, que estava na cozinha a preparar um bolo de chocolate. Nem sequer gosto muito de bolo de chocolate, mas queria deixá-la participar nas celebrações da forma que mais lhe apetecesse. Enfim, ela apareceu e imediatamente interrompeu as suas actividades culinárias para me levar ao hospital. Podia ser algo muito grave!

                Deram-me uma pulseira verde nas urgências. Chegámos lá… Seriam umas onze horas da manhã. Anoitecia quando fui atendida. Imediatamente, fizeram uma série de requisições para exames, sem sequer olhar muito para o objecto que tinha crescido no centro do meu peito. Eu perguntava-lhes se não podiam simplesmente arranca-lo. O meu dia, o meu dia especial: arruinado.

                Passados alguns dias, vieram os resultados. Pediam-me para marcar uma consulta na oncologia. Oncologia? Porquê? Eu era, eu sou!, demasiado nova para ter um cancro! Deve haver algum engano!

                A médica mostrou-me os resultados dos exames. Passava-se algo de incompreensível comigo: de um dia para o outro, havia-me crescido uma massa que, certamente, era tumoral. Porque normalmente as massas que crescem nos corpos das pessoas são tumorais. Mas os exames feitos, o raio-x, a tac, a biópsia, revelavam que a estrutura desde objecto estranho era muito especial. A médica conseguiu apenas descrevê-lo como “aparenta ter a estrutura de um caroço, como um caroço de abacate, quer na forma macroscópica quer no exame histopatológico da biópsia.”

                “Vamos ter de o tirar, mas primeiro temos de o reduzir. Vamos hoje falar do seu plano para quimioterapia.”

                Ao início recusei-me. Continuava a acreditar que o tal caroço de abacate desapareceria se aguardássemos. Mas quando contei o resumo da consulta à minha mãe, ela entrou em pânico. O pânico que eu ainda não tinha passou de imediato para ela e ordenou-me, sem mais questões, que fizesse exactamente o que os médicos diziam.

                Assim começou o meu tratamento.

           Eram comprimidos, era medicação injectável. Ao início não custava, claro, mas depois começaram os efeitos secundários. O primeiro foi a náusea. Não conseguia comer nada, tudo me deixava a boca seca, como se estivesse a comer cartão. Quando comia alguma coisa, o meu estômago revoltava-se e ordenava-me que corresse para a casa de banho, onde eu expelia os pedaços de alimentos meio mastigados, misturados numa gosma amarelada, que borbulhava no fundo da sanita como uma poção de bruxedo. Mas, graças ainda a outra medicação injectável, comecei a tolerar melhor os alimentos. Descobri coisas novas sobre as minhas preferências alimentares. Passei a gostar de grelos. Passei a detestar gelados. O caroço de abacate no meu peito continuava exactamente na mesma.

                Comecei a reparar que outras alterações aconteciam com o meu corpo. Frieiras nos dedos, das mãos e dos pés, como se o músculo dentro da pele de repente inchasse demasiado e se quisesse libertar. As minhas unhas negras, frágeis. Um dia começaram a cair. E o cabelo. Também começou a cair. Acordei um dia e tinha uma enorme mecha de cabelo, como a cauda de um animal, solto na almofada. Quando lavei o cabelo nesse dia, caiu quase todo. Chorei. A minha mãe levou-me a um cabeleireiro para rapar a cabeça. Depois fomos comprar uma peruca. Perucas caras, de cabelos naturais, cabelos vindos de cabecinhas rapadas na Ásia ou noutro sítio qualquer. Tudo aquilo me parecia deprimente. Eu que sempre me tinha queixado do meu cabelo demasiado grande e volumoso, agora era uma careca em busca de uma cabeça falsa. 

                A minha mãe acabou por escolher uma para mim. Era parecida com o meu cabelo original. Foi cara, muito cara. Mas a minha mãe apenas me queria ver feliz naquele momento. O que me faria mais feliz seria ver-me livre do caroço de abacate sem ter de passar por todas aquelas coisas. Afinal, que mal pode fazer um caroço de abacate? Houvesse um sutiã com três bolsas e talvez pudesse viver com ele para sempre. Ou talvez crescesse um abacateiro no meu peito.

                Na rua usava sempre a peruca. Na oncologia tive um workshop de amarrar lenços na cabeça e passei a usar isso em casa. Via-me ao espelho com o lenço e reparava que a minha cara de vinte e seis anos tinha envelhecido décadas em poucos dias. Eu emagrecia e as minhas bochechas desapareceram. Eu emagrecia e as olheiras aumentavam, em grandes papos violetas.

                Ia ao hospital frequentemente. Os médicos não sabiam explicar porque é que, apesar de todos os tratamentos, o suposto caroço de abacate não desaparecia nem diminuía de tamanho. Com a dimensão que tinha, era demasiado perigoso operar, para se proceder à extracção.

                Comecei a fazer radio. Radio como em radioterapia, não como em estação FM. A pele de toda aquela zona ficou negra e começou a cair em pedaços. Era carne viva e, por baixo, conseguia ver a cor da minha massa e um bocadinho da sua textura. Era exactamente como tinham descrito: um caroço de abacate.

                Mas, apesar de tudo, não diminuiu.

                Portanto, tenho de continuar a fazer quimio, a fazer radio, a fazer de tudo. Quero parar, mas a minha mãe não deixa. Pensam que é um cancro, um cancro de mama. Pode metastizar para o pulmão, para o fígado, para o esófago. A minha mãe não quer que eu morra, claro. Eu também não quero morrer, claro. Mas ninguém me ouve quando tento explicar que esta coisa é absolutamente inofensiva. É um abacate, não passa de um abacate. Tenho de continuar a vomitar, a emagrecer, com partes do meu corpo a cair, tudo por causa de um abacate.

                Não é ele que me vai matar, penso. Acho que é a cura que me vai matar. O coração já começa a dar de si. Talvez depois de eu morrer possam fazer a excisão da massa e aí saberão que eu sempre tive razão.

                Por enquanto, aguentar a cura. Mas tenho a certeza que me vai matar.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Andar de bicicleta ninguém esquece

Foto das nuvens em forma de mapa-mundi (Monte Negro, Brasil, 2012)
 
 
 
 
 
 
 
 
 Andar de bicicleta ninguém esquece
 
                A primeira coisa foi a casa na árvore. O meu pai começou a construí-la, colocando barrotes que tinham sobrado da obra da pérgola de forma a fazer a base daquilo que viria a ser uma casa: habitáculo de diversão para mim e para a minha irmã, onde poderia observar pássaros e todos os animais selvagens que vinham descritos nos fascículos sobre natureza que coleccionávamos. Enquanto o meu pai criava as fundações, no topo da árvore, mantinha-me dentro de casa, evitando aquele sol ribatejano abrasador, do tipo que estala a terra e evita o crescimento de plantas e formas larvares, mantinha-me no fresco, lendo, lendo, sempre lendo.

                Fascículos sobre a natureza, fascículos sobre actividades de escuteiros mirins, porque é que nunca me deixaram entrar nos escuteiros (não sabia na altura que era uma actividade religiosa). Lia o Uma Aventura e lia o Quarteto de Alexandria, lia o Triângulo Jota e lia o José e seus Irmãos, lia os fascículos sobre a natureza. E o meu pai construía a casa na árvore.

                Quando as fundações ficaram prontas, ele convidou-nos a subir, para vermos a vista, para constatarmos como seríamos felizes naquele lugar secreto, uma segunda casa para nós, com todo o conforto, como nos filmes, como nos livros. Foi só nessa altura que descobrimos que a árvore escolhida para ser o apoio do habitáculo era demasiado alta, demasiado íngreme: impossível de subir. Os meus dedos roídos feriam-se na casca da oliveira, as ervas agudas picavam-me as pernas por baixo dos calções de licra, tentei subir, caí, voltei a cair. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã era demasiado pequena para sequer tentar.

                Como o projecto da casa da árvore teve de ser abandonado, deixando-se os barrotes a apodrecer, fundação incompleta, casa de impossibilidades, passámos ao próximo plano: o carrinho de rolimã. Só sabíamos da sua existência por causa das aventuras nos livros da Turma da Mônica, mas recebemos a notícia de que o meu pai iria construir os nossos próprios carrinhos brevemente. Fomos a uma loja de ferragens para encontrar rolamentos, encontraram-se umas tábuas velhas e o meu pai pôs mãos à obra.

                Eu levava os nossos cães a passear, soltava-os das correntes por um momento e fingia ser uma grande treinadora. Propunha-me a ensinar a rafeirada amiga a detectar drogas e açúcar em sangue de diabéticos, levando-os a ver o campo circundante com uma minúscula trela (são cães ferozes, são cães de ataque, têm de andar em trela curta, têm de ter açaime, cães de ataque, cães de ataque). Mas os cães não me obedeciam. Uma tarde semanal não era o suficiente para os ensinar, mas na altura eu não sabia, colocava-os a lutar para se entenderem, obrigava-os a estabelecer uma hierarquia impossível, depois corria tudo mal, tudo mal. Voltavam à corrente. Saltavam, ladravam, desespero por um pouco de contacto humano. Sempre na corrente, cães soltos no campo são perigosos, o campo é perigoso para eles, podem matá-los a tiros de caçadeira, podem envenená-los, podem ataca-los (cães de ataque).

                Ficou pronto o carrinho de rolimã (rolamentos, rolimã, rola, romã).

                Levámo-los para a rua mais inclinada da aldeia. Na altura não havia capacetes, nem cotoveleiras, nem joelheiras, nem caneleiras. Eu seria a primeira a descer no precário mobil construído pelas grossas mãos paternas. Não tive coragem. Chorei. Tudo terminava comigo a chorar.

                A minha irmã também chorou nesse dia. Também tinha medo de descer. O mais provável era o bólide desfazer-se a caminho da meta de chegada. Mas não podíamos dizer isso.

                Mas havia uma coisa, para além dos fascículos sobre a natureza, para além dos cães, para além das árvores, para além do sol que estalava a terra e impedia o crescimento das larvas. Havia a bicicleta.

                Tinha visto a mais perfeita bicicleta infantil numa loja perto da minha casa. Muito cara, muito cara, mas de todos os modos perfeita: guiador cor-de-rosa, uma cestinha na frente, selim estampado com gatos. Queria-a. Precisava de a ter. Para poder viver aventuras precisava de uma bicicleta: era assim que os miúdos dos filmes se transportavam de um lado para o outro. Portanto, o meu pai comprou-nos bicicletas. Não eram como tinha idealizado: a minha era cor de laranja e branca, um protótipo de bicla de corrida adaptado ao meu tamanho diminuto. A da minha irmã era azul, com um estampado que parecia ganga, menorzinha, apropriada ao seu tamanho de micróbio humano. Ambas tinham as rodinhas de apoio. Ainda não sabíamos andar de bicicleta, mas íamos aprender.

                Ao início correu tudo bem. Dávamos voltas ao pátio, cães ladrando, pólenes penetrando minhas narinas, alergia à humidade, voltas ao pátio nas pausas da leitura, voltas ao pátio depois dos desenhos animados. Depois aventurei-me a sair do pátio: muito complicado, a terra destruída pelo sol não era a direito, altos e baixos, subidas e descidas, as rodinhas de apoio não andavam por mais que esforçasse os meus joelhos nodosos a ir para cima e para baixo (na altura era magra, um pequeno aranhiço, na altura diziam-me que tinha de me esforçar para ser mais alta, mas os joelhos não cresciam, ficaram sempre do mesmo tamanho). Então, um dia, o meu pai decidiu mostrar-nos como guiar uma bicicleta sem as rodinhas.

                Não estava à espera, eu não estava à espera, que viesse a ter medo. Mas tive. A estrada não era igual à dos filmes, as casas não se sucediam com seus jardins frontais a uma estrada de asfalto, sempre a direito, sempre cinzenta e sempre a direito. Aquela estrada estava retalhada em buracos e buraquinhos, cheia de água da chuva, cheia de lama. Com lombas, subidas, descidas. Assim que experimentei a bicicleta sem as rodinhas, caí. Tudo terminava comigo a chorar.

                Depois crescemos e a casa na árvore apodreceu, o carrinho de rolimã foi transformado em tábuas para lenha, a bicicleta ficou algures a ganhar ferrugem, só os livros se mantinham fiéis a si mesmos. Agora tínhamos ocupações, tinha de sair cedo para andar de cavalo, tínhamos de ver os filmes que alugávamos no Blockbuster sem falta, tínhamos de gravar os desenhos animados para não perdermos nenhum episódio (não achas que já não tens idade para ver isso?), tinha de estudar matemática, tinha de treinar os meus cães, parasitados, enviesados, doentes, envenenados, tinha de fazer coisas, tinha de fazer. Esqueci os fascículos e o sol tornou-se um pesadelo. Rachas na terra, rachas na minha cabeça, sol na moleirinha até fazer derreter os cabelos. E as alergias, tantas alergias.

                Um Verão, fomos à terra. A terra do meu pai, que fica no Brasil. O ar fresco, cheiro a chuva, mitos de infância (uma vez tomei banho na chuva, com sabonete e tudo), o céu. Apenas o céu, largo, infinito, desfeito em milhares de matizes de cor. Um dia vamos pescar no rio (infância), um dia vamos ver o seminário (infância), um dia vamos. Passava grandes tardes com os meus primos, a comer melancia, a comer pastel, tomando chimarrão. O frio não era tão frio. O calor não era tão quente. O céu pleno de nimbus flácidas, que se iam desfazendo.

                Vamos passear de bicicleta?, perguntava-me a minha prima. Não sei andar de bicicleta, respondi à minha prima. Uma vez aprendi, expliquei, mas depois esqueci-me como se faz.

                Andar de bicicleta ninguém esquece.

                Com toda a paciência, foi buscar a sua bicicleta, em nada semelhante ao veículo laranja e branco onde tinha tentado a primeira vez. Maior, preparada para mais tipos de terreno. Pus-me em cima dela e ela explicou-me. O processo era simples: dar aos pedais. Mas como me equilibrar?

                Continua sempre a pedalar.

                Ela apoiou-me e eu fui andando. Ela apoiou-me e depois largou-me e eu continuei a andar. Fui dar uma volta pelo quarteirão. Tal e qual como imaginava: a estrada asfaltada, direita, as vivendas com jardins frontais, árvores na calçada deixando cair frutos do tamanho de abóboras, folhas mortas, sapos saltitando entre os raios das rodas. Fui andando, sempre andando, pedalando. Rápido, sempre mais rápido, com toda a confiança. O selim magoa um pouco as partes, mas sou rápida, como uma brisa, como uma flecha. O céu avermelhado mostra nuvens com a forma do mapa-mundi. O céu rosado derrete-se em noite, está quente mas está fresco, sinto o ar entrando para a minha laringe, para os meus brônquios, bronquíolos, alvéolos pulmonares, o céu é tão grande. Livre, sou livre.

                Caio. Desiquilibro-me e caio, joelho nodoso em cima da borda da calçada. Sangue.

                Em frente a uma casa, sentados em cadeiras de praia, dois cotas olham para mim. Riem. Riem em brasileiro.
 
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Yokan



               








 Yokan


                 Desde pequeno que me esforço bastante para não ser a causa de incómodo de alguém. Meus pais ensinaram-me que devia ser sempre discreto e cuidadoso para não magoar as pessoas à minha volta e até hoje, que já sou muito mais velho, mantenho essa regra de ouro. Por isso, quando me sento no metro com as compras aguardo sempre que todos se sentem. Assim, não roubo o lugar a ninguém.

                Às vezes as pessoas oferecem-me o lugar. Olham para mim, talvez já um pouco encurvado, talvez já um pouco enrugado, talvez já um pouco embranquecido, devem pensar que estou com dificuldades em estar no meio da multidão do metro, carregado com sacos, debilmente agarrado ao varão, procurando encontrar a porta de saída sem ser arrastado pela corrente de gente, atenção à distância entre as portas e a plataforma, takecareofiorbelongings… Mas a verdade é que prefiro estar em pé a ver alguém impedido de se sentar por mim ou pelos meus sacos de compras.

                O supermercado onde vendem a comida que o peixe gosta mais fica longe, são duas estações de metro. Por vezes, distraio-me a olhar para os pombos que estão dentro da estação, tentando perceber como entraram ali, perceber o que procuram exactamente. Por vezes tenho vontade de tirar um pouco do pão que trago nos sacos e dar-lhos, para ver se finalmente encontram o que procuram. Mas isso incomodaria toda a gente. Por vezes gostava de trazer o meu rádio portátil e ouvir aquelas belas músicas dos anos oitenta. Mas isso incomodaria toda a gente.
               
                Se me mantiver em pé, em silêncio, virado de costas, ninguém irá reparar em mim. Eu reparo nas coisas, as coisas trazem-me memórias, mas desde que ela morreu que sinto a cabeça aglutinada, como se tudo o que existe fosse um símbolo da sua antiga existência. Estou no metro e vejo um anúncio do novo concerto do Roberto Carlos e o meu primeiro pensamento é sempre “como ela gostava do Roberto Carlos”, nunca as músicas, nunca as roupas, mas “como ela gostava”, “como ela fazia”, “como ela queria”. Nesses momentos sei que tenho saudades. Impeço-me de chorar, para não incomodar.

                Quando chego a casa com as compras, compras que faço todas as semanas após a viagem de metro, a primeira coisa que faço é dar comida ao peixe. Li num guia sobre aquariofilia que comprei na altura que não se deve alimentar este tipo de peixes com muita frequência, pois eles não têm auto-controlo e comem até morrer. Depois, limpo o filtro do aquário e ajusto a temperatura. É o meu pequeno prazer semanal, ver aquela criatura minúscula, que não percebe nada, fazendo um trejeito que talvez seja de felicidade.

                Depois, como todos os dias, encomendo o jantar do restaurante e como sozinho a olhar para o peixe. Depois de ter voltado da guerra prometi a mim mesmo que apenas comeria os alimentos preparados pela minha noiva, que veio a ser a minha esposa. Mas agora ela já não está aqui, portanto não pude cumprir a promessa. Ela também tinha prometido que, enquanto eu não voltasse da guerra, que beberia sempre o café queimado. Habituou-se, nunca mais bebeu o café normal.

                Acho que também ela não cumpriu bem a promessa e que, por isso, estamos quites.

                Não tenho televisão, a casa ainda está decorada à maneira dela, cheia de quadros floridos e pastorinhas de cerâmica, de certa forma é para mim insuportável estar aqui, mas também não sei o que fazer, para onde ir, como me distrair. Portanto, sento-me na varanda a ouvir rádio, sempre baixinho, muito baixinho para não chatear os vizinhos. Ao menos quando a nossa filha ainda cá estava tínhamos alegria. Mas depois da morte da minha esposa, ainda era adolescente a garota, tudo mudou. Acabou a escola, empregou-se, saiu de casa, casou-se, teve o bebé, descasou-se… Agora está na Inglaterra.

                Vejo no mapa onde exactamente é a Inglaterra, a quantos quilómetros exactamente fica esse país. O peixe olha também para lá, provavelmente constatando que teríamos de atravessar muita água para lá ir.

                O peixe foi um presente. Um presente meu para o meu neto. Comprei-o numa loja de animais no fim da rua e fui a pé com o saquinho transparente na mão até à sua casa. A minha filha zangou-se.

                “Para que é que vais dar essas porcarias ao miúdo? Não vês que não serve para nada? Que não o podemos levar?”

                “Levar para onde?”

                Foi nesse dia que ela me disse que iam de abalada para Inglaterra, que vivia lá uma amiga que lhe ia arranjar trabalho, que vivia lá um amigo que lhe ia arranjar casa, que vivia lá mais não sei quem que ia fazer mais não sei o quê, fiquei confuso, tão confuso, olhei em volta à procura da minha esposa, mas ela não estava lá, nunca mais estaria em lado nenhum, foi assim que fiquei com o peixe.

                Depois comprei um livro de aquarofilia, porque prometi ao meu neto que ia tomar conta do peixe até ele voltar.

                O peixe está um pouco maior, come bem, tem algas de plástico no aquário e parece estar feliz à sua maneira, com o seu olhar vítreo sempre fixado em alguma coisa que está fora da minha compreensão. Como não tenho ninguém com quem falar, falo com o peixe. Mas ele nunca responde, ele nunca percebe.

                Durante os primeiros tempos após a partida da minha filha, tentei ligar-lhe para o telemóvel. Eu não tenho uma coisa dessas, só tenho o meu velho telefone fixo, um dos que não têm botões, em que ainda se disca o número. Portanto, quando ela não atendeu pensei que o telefone estivesse estragado. Chamava, chamava, ia sempre para a caixa de mensagens. Houve um dia em que deixou de chamar. Procurei um técnico, que disse estar tudo bem com o telefone. Provavelmente a rapariga tinha mudado para um número inglês, para não pagar roaming.

                Perguntei como poderia obter o número. O senhor disse que não sabia. Perguntei como poderia falar com ela. O senhor disse para falar pelo skype. Eu não sei o que é o skype. O senhor disse que se usava num computador.

                Por isso, fui à biblioteca municipal e pedi para usar um computador. Em princípio, deveria ser semelhante a uma máquina de escrever, mas devo confessar que não percebi nada sobre ele. Sabia que começava tudo com o carregar num tal de botão Onofre… Pedi ajuda e a simpática menina da biblioteca conseguiu, através do nome próprio e apelido, encontrar uma página com muitas fotografias da minha filha e do meu neto, rodeados  de pessoas que eu não conhecia, felizes, mais crescidos, com roupas bonitas, ela com um ar um pouco cansado, talvez. A menina da biblioteca disse-me que escrevesse uma mensagem para ela. Escrevi:

                “QUERIDA FILHA OLÁ DAQUI PAI TELEFONA-ME NÃO TE CONSIGO TELEFONAR”

Alguns segundos depois, para meu grande espanto, apareceu uma resposta:

“Por favor pai, qual é a tua? Estás a gritar, não se escreve assim! Não se fala mais por telefone, manda mensagem por aqui ou não fales. Quando puder falo mais, agora muito ocupada.”

A menina da biblioteca ficou a olhar para mim e eu sabia que os meus olhos se enchiam de lágrimas. Procurei, como sempre, o conforto da minha esposa e, como sempre, percebi mais uma vez que ela não existia mais. Fui-me embora. Cheguei a casa. Falei com o peixe.

Estou até este momento, mais ou menos, a tentar falar com ele. A tentar comunicar. Acho que estou a conseguir ter uma espécie de ligação, uma ligação entre algo muito velho, que sou eu, e algo muito mais antigo, que é o peixe. Sei que o devia libertar. Estudei no livro de aquariofilia que este tipo de peixe é originário da Ásia, sendo especialmente popular em lagos da China. Como levar o peixe para a China? Talvez eu próprio devesse ir para a China.

Levaria o peixe num saquinho transparente e, do centro de uma ponte em madeira num jardim de um qualquer pagode, deixaria cair todo o seu conteúdo. Depois, se a ponte fosse suficientemente alta, eu próprio me deixaria cair. Sim, cair dentro de um rio, dentro de água corrente, para ser também um peixe, escamas douradas, escamas prateadas, também eu um peixe de coração frio, sangue gelado, coração despedaçado, eu finalmente livre, sem incomodar ninguém, nadando com a corrente, rodeado de outros peixes como eu, até a voltar a encontrar, até voltar a encontrar algo de muito pequenino mas tão bom, tão bom… Coração frio, coração desfeito. Talvez já me tenha tornado num peixe agora.

Mas até as pedras. Até as pedras se sentem tão sós…