domingo, 7 de maio de 2017

Chemo

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Chemo


                Apesar de tomar banho todos os dias, só lavo a cabeça duas vezes por semana. Não tenho tempo, não tenho paciência: o meu cabelo é demasiado comprido e cheio. Preferível andar com ele sempre preso, num rabo-de-cavalo ou, ainda melhor, num coque. Assim, não perco por aí um milhão de caracóis e outros cabelos fugitivos. No entanto, nessa manhã em que fazia os meus vinte e seis anos, pensei que queria lavar a cabeça.

                Estava a lavá-la, ainda cheia de sono, mal acordada de uma noite de excitação (afinal, estava prestes a fazer anos!), quando reparei que algo estava errado com o meu corpo. Olhei para o meu peito e, no centro, precisamente no meio do esterno, estava uma coisa redonda. Não entrei logo em pânico, penso eu. Ainda estava demasiado adormecida para entrar em pânico. Mas quando me vi ao espelho, reparei que alguma coisa estava realmente errada. Uma bola, uma massa, como um terceiro seio. Ali no meio. Coberto por pele. Duro. Carreguei-lhe: não doía. Podia senti-lo a mover-se ligeiramente, se lhe tocasse. Pensei, claro, que poderia aguardar que o meu dia de aniversário terminasse. Podia ser que passasse durante o dia. Se lhe pusesse um pouco de gelo. Se lhe pusesse um pouco de voltaren ou fenergan. Provavelmente era uma borbulha, uma reacção alérgica exagerada.

                Mas quando fui por o sutiã, percebi que tinha de tratar do assunto imediatamente. O meu corpo estava mutado e não poderia passar o aniversário assim. Estava feia. Ninguém merece estar feio no dia de anos.

                Chamei a minha mãe, que estava na cozinha a preparar um bolo de chocolate. Nem sequer gosto muito de bolo de chocolate, mas queria deixá-la participar nas celebrações da forma que mais lhe apetecesse. Enfim, ela apareceu e imediatamente interrompeu as suas actividades culinárias para me levar ao hospital. Podia ser algo muito grave!

                Deram-me uma pulseira verde nas urgências. Chegámos lá… Seriam umas onze horas da manhã. Anoitecia quando fui atendida. Imediatamente, fizeram uma série de requisições para exames, sem sequer olhar muito para o objecto que tinha crescido no centro do meu peito. Eu perguntava-lhes se não podiam simplesmente arranca-lo. O meu dia, o meu dia especial: arruinado.

                Passados alguns dias, vieram os resultados. Pediam-me para marcar uma consulta na oncologia. Oncologia? Porquê? Eu era, eu sou!, demasiado nova para ter um cancro! Deve haver algum engano!

                A médica mostrou-me os resultados dos exames. Passava-se algo de incompreensível comigo: de um dia para o outro, havia-me crescido uma massa que, certamente, era tumoral. Porque normalmente as massas que crescem nos corpos das pessoas são tumorais. Mas os exames feitos, o raio-x, a tac, a biópsia, revelavam que a estrutura desde objecto estranho era muito especial. A médica conseguiu apenas descrevê-lo como “aparenta ter a estrutura de um caroço, como um caroço de abacate, quer na forma macroscópica quer no exame histopatológico da biópsia.”

                “Vamos ter de o tirar, mas primeiro temos de o reduzir. Vamos hoje falar do seu plano para quimioterapia.”

                Ao início recusei-me. Continuava a acreditar que o tal caroço de abacate desapareceria se aguardássemos. Mas quando contei o resumo da consulta à minha mãe, ela entrou em pânico. O pânico que eu ainda não tinha passou de imediato para ela e ordenou-me, sem mais questões, que fizesse exactamente o que os médicos diziam.

                Assim começou o meu tratamento.

           Eram comprimidos, era medicação injectável. Ao início não custava, claro, mas depois começaram os efeitos secundários. O primeiro foi a náusea. Não conseguia comer nada, tudo me deixava a boca seca, como se estivesse a comer cartão. Quando comia alguma coisa, o meu estômago revoltava-se e ordenava-me que corresse para a casa de banho, onde eu expelia os pedaços de alimentos meio mastigados, misturados numa gosma amarelada, que borbulhava no fundo da sanita como uma poção de bruxedo. Mas, graças ainda a outra medicação injectável, comecei a tolerar melhor os alimentos. Descobri coisas novas sobre as minhas preferências alimentares. Passei a gostar de grelos. Passei a detestar gelados. O caroço de abacate no meu peito continuava exactamente na mesma.

                Comecei a reparar que outras alterações aconteciam com o meu corpo. Frieiras nos dedos, das mãos e dos pés, como se o músculo dentro da pele de repente inchasse demasiado e se quisesse libertar. As minhas unhas negras, frágeis. Um dia começaram a cair. E o cabelo. Também começou a cair. Acordei um dia e tinha uma enorme mecha de cabelo, como a cauda de um animal, solto na almofada. Quando lavei o cabelo nesse dia, caiu quase todo. Chorei. A minha mãe levou-me a um cabeleireiro para rapar a cabeça. Depois fomos comprar uma peruca. Perucas caras, de cabelos naturais, cabelos vindos de cabecinhas rapadas na Ásia ou noutro sítio qualquer. Tudo aquilo me parecia deprimente. Eu que sempre me tinha queixado do meu cabelo demasiado grande e volumoso, agora era uma careca em busca de uma cabeça falsa. 

                A minha mãe acabou por escolher uma para mim. Era parecida com o meu cabelo original. Foi cara, muito cara. Mas a minha mãe apenas me queria ver feliz naquele momento. O que me faria mais feliz seria ver-me livre do caroço de abacate sem ter de passar por todas aquelas coisas. Afinal, que mal pode fazer um caroço de abacate? Houvesse um sutiã com três bolsas e talvez pudesse viver com ele para sempre. Ou talvez crescesse um abacateiro no meu peito.

                Na rua usava sempre a peruca. Na oncologia tive um workshop de amarrar lenços na cabeça e passei a usar isso em casa. Via-me ao espelho com o lenço e reparava que a minha cara de vinte e seis anos tinha envelhecido décadas em poucos dias. Eu emagrecia e as minhas bochechas desapareceram. Eu emagrecia e as olheiras aumentavam, em grandes papos violetas.

                Ia ao hospital frequentemente. Os médicos não sabiam explicar porque é que, apesar de todos os tratamentos, o suposto caroço de abacate não desaparecia nem diminuía de tamanho. Com a dimensão que tinha, era demasiado perigoso operar, para se proceder à extracção.

                Comecei a fazer radio. Radio como em radioterapia, não como em estação FM. A pele de toda aquela zona ficou negra e começou a cair em pedaços. Era carne viva e, por baixo, conseguia ver a cor da minha massa e um bocadinho da sua textura. Era exactamente como tinham descrito: um caroço de abacate.

                Mas, apesar de tudo, não diminuiu.

                Portanto, tenho de continuar a fazer quimio, a fazer radio, a fazer de tudo. Quero parar, mas a minha mãe não deixa. Pensam que é um cancro, um cancro de mama. Pode metastizar para o pulmão, para o fígado, para o esófago. A minha mãe não quer que eu morra, claro. Eu também não quero morrer, claro. Mas ninguém me ouve quando tento explicar que esta coisa é absolutamente inofensiva. É um abacate, não passa de um abacate. Tenho de continuar a vomitar, a emagrecer, com partes do meu corpo a cair, tudo por causa de um abacate.

                Não é ele que me vai matar, penso. Acho que é a cura que me vai matar. O coração já começa a dar de si. Talvez depois de eu morrer possam fazer a excisão da massa e aí saberão que eu sempre tive razão.

                Por enquanto, aguentar a cura. Mas tenho a certeza que me vai matar.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Boas. Desculpe a pergunta, mas este texto é ficção?

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    1. Bom dia, tudo à vontade. :) É inventado, sim, embora baseado em experiências a que assisti.

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