domingo, 29 de outubro de 2017

Desafio de Escrita - Floresta Digital

A Floresta, Paul Cézanne










Desafio de Escrita #1 (proposto no grupo Eden)
Tema: Era da Informação
Data: 7 de Novembro
300 Palavras

 
Floresta Digital


                Depois do flagelo dos incêndios florestais que assolaram o nosso país no final dos anos dez do presente século, foi decidido pelo governo implementar nova tecnologia vegetal, que havia sido criada num laboratório californiano no ano de 24.

                Através da alteração genética do ADN mitocondrial dos eucariotes vegetais, foi possível inserir um gene biomecânico e biométrico. Originalmente, tal havia sido criado para medir e pesar os vegetais utilizados para a alimentação humana, um passo à frente do transgénico porque, para além de transgénico, era quase andróide. Apesar das manifestações ecologistas sobre a destruição da vida vegetal tal como a conhecemos, tal projecto caminhou a passos largos para a sua conclusão devido a uma descoberta fascinante: a tal alteração genética tinha o efeito secundário de transmitir às plantas a capacidade de produzir rede wi-fi.

                A partir do momento em que semelhante descoberta foi lançada ao público, imediatamente a população generalista de todas as cidades correu a investir nas acções da empresa, que rapidamente colocou a sua tecnologia disponível ao público. Agora, como sabemos, poderemos comprar um vaso de ervas aromáticas, como salsa ou coentros, e ter rede wi-fi livre, desencriptada, na nossa casa. As consequências, tal como vimos nos últimos anos da década, foi a falência progressiva dos gigantes das telecomunicações, facto que impediu a implementação do projecto do nosso país por pressão unilateral destas em aposição às ideias do governo.

                Mas, graças aos votos da minoria de esquerda, foi possível o estudo, criação e implementação do projecto “Floresta Digital”. Assim, nos tempos que correm, temos as áreas ardidas completamente reflorestadas, sendo que os incêndios de Verão foram essencialmente eliminados. Afinal, as árvores nunca serviram para grande coisa excepto para criar o oxigénio que respiramos. Agora que temos uma nação com uma área de rede wi-fi livre invejável pelos outros países Europeus, todos desejam plantar a sua própria árvore de forma a contribuir socialmente para a comunicação sem fronteiras, sem limites e sem qualquer tipo de valor acrescentado.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Desafio de Escrita - Segredinhos

@Pixiv


Desafio de Escrita #2: 
Tema: "Segredo"
Data: Final de Outubro
300 palavras
Segredinhos

                Éramos meninas, era a primária. Recreio e eu sentia os grãos de gravilha a estalarem por baixo da sola de borracha das minhas sapatilhas, acocorada no meio do campo, observando as pedras, o cimento, o calor das pedras e do cimento. A minha amiga correu para mim, seu cabelo loiro esvoaçando de energia, acocorou-se ao meu lado e observou comigo.

                “Tenho um segredo para te contar.”

                “Tenho um segredo, não podes contar a ninguém.”

                “Não podes contar a ninguém, nunca.”

                Senti os seus lábios húmidos da baba do lanche a tocarem a minha orelha. Senti um arrepio que me percorreu a cabeça até ao cérebro. Tinha horror, horror aqueles lábios que se moviam em palavras que eu nem sequer entendia. Era um segredo muito comprido e não ouvi nada, ouvia os rapazes a jogarem à bola, as meninas a jogar ao elástico, ouvia os pássaros e o restolhar das folhas das oliveiras, ouvia os gritos das crianças mais pequenas, as brincadeiras, ouvia tudo. Tudo menos o segredo.

                “Prometes que não contas a ninguém?”

                Prometi.

                “Jura que não contas a ninguém.”

                Jurei.

                No recreio seguinte, o último antes de irmos para casa, procurei a minha amiga. Já me tinha esquecido do segredo que não tinha ouvido e queria brincar com ela aos animais, nós gostávamos de fingir que éramos animais arborícolas e subíamos às árvores. Encontrei-a rodeada de rapazes, a chorar, a chorar. Olhou para mim e o seu grito assustou-me a ponto das lágrimas me fugirem.

                “Contaste o meu segredo a toda a gente!”

                Nunca mais brincámos aos animais.

                Até hoje não sei qual era o segredo.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A Criação do Mundo

A Criação do Mundo e a Expulsão do Paraíso
Giovanni di Paolo










A Criação do Mundo

Ando por cima do brilho do sol
Gotas de luz desfazendo-se nos meus dedos
De suas migalhas nasce então a criação do mundo.

Se no início era o nada,
Então eu era tudo.
E no meu sonho
Decidi criar.
Primeiro apareceu o dia e a noite
Por isso apareceram também o sol e a lua
E logo por isso apareceram todos os deuses
Não tinha lugar onde ficar.
Por isso inventei a água e a terra e logo veio a sopa primordial
E moléculas
E os monera
E os eucariotes
E quando dei por mim olhava para a rosa vermelha de3pendurada na grade branca do quintal
E olhava para a vespa que a polinizava e se alimentava das larvas de mosquito
E olhava para as larvas contorcendo-se na lama de um ralo entupido
E quando dei por mim existia já a árvores e os espinhos,
A pedra e a esmeralda,
O rio e a nuvem,
A montanha e a areia,
O homem e a mulher e outra coisa qualquer.
Com isso nasceram os animais e eu nasci entre eles
Vi o mundo que havia criado
O austrolopiteco,
A criação do instrumento,
A charrua,
A corrente,
A cruz,
Os pregos,
A fogueira,
Homens ordenados em fileira.
Andei entre eles e toquei-lhes as faces, como se eu fosse o vento
Não sabiam que eu os tinha criado
Gritavam pelos deuses,
Quando eu nunca inventei os deuses.
Mas quando existe o mundo
Existe sempre tempo.
E o tempo passou
E continuei a ver o mundo que tinha criado
Os escravos,
Os bacamartes,
A auto-ajuda,
O LSD,
A vacina para a hepatite,
O vírus do HIV,
A mini-saia,
O rádio Hi-Fi,
O super-herói,
O filme de acção,
O género Noir,
E a televisão,
E as pessoas continuavam ordenadas
Andei entre elas e toquei-lhes
Percebi que já não havia deuses
E que brevemente nem pessoas haveria.
Eu criara este mundo
Porque queria ver a rosa vermelha
Porque queria ver a abelha
Mas no mundo que eu criei, já ninguém queria ver nada.

Rolo na palma da mão uma pedra azul.
Fria, a pedra azul.
Será que a partir do momento em que dizemos uma coisa em voz alta
Ela passa a fazer parte
Da nossa existência?
Tenho a certeza que mesmo eu,
Mesmo eu
Mesmo eu
Não passo do sonho nocturno de uma princesa.
 


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desafio de Escrita - Soluto

Pixiv Id 1052836 #1128774


Desafio de Escrita #1: 
Tema: "Recomeços"
Data: 1 de Outubro
250 palavras







Soluto

                Reinicio o processo. Já foram quantas vezes? Não sei. Não sei, mas não vou desistir. Tenho a certeza que encontrarei a fórmula correcta, se obedecer ao método científico. Utilizei-o uma e outra vez, outra vez, outra vez, mas ainda não me saiu bem. Vou tentar de novo.

                Aqueço o solvente. Bico de bunsen com chama gaseificada, no frasco de vidro crescem as bolhas, espessas e perigosas, rebentam e saltam os salpicos. Mas eu tenho todo o cuidado, na hotte é preciso ter todo o cuidado. As luvas funcionam, a bata funciona, os óculos e a máscara de protecção, tudo funciona. Muito cuidadosamente, adiciono o soluto. Sei que a fórmula do soluto está correcta. Tenho a certeza absoluta, embora ainda não tenha tido provas concretas. Com toda a precisão, deixo cair as microgramas do soluto, pequeníssimos grãos brilhantes, salinos. Misturo.

                A solução reage. Reage! Um pequeno espasmo de líquido, mil microscópicas gotas, a espuma, a espuma que pousa numa água de mil cores! Sim! Panaceia universal, conseguida após tantos recomeços!

                Levo-a para a refrigeração, tomando o frasco nas mãos como se da mais delicada planta se tratasse. Não consigo conter a minha excitação. Apetece-me dar saltos no ar, rodopiar, cantar, cantar…!

                Não!

                Tropeço. Caio. No chão se desfaz o frasco, a solução desaparece pela magia da evaporação.

                Bolas. Lá terei de começar outra vez.

domingo, 25 de junho de 2017

A Ilha Maravilhosa

Foto tirada numa ilha maravilhosa, circa 2017










A Ilha Maravilhosa

                Sou uma criança e depois de ir aos concertos vi-me a brincar na ilha maravilhosa. A ilha não se chama assim, mas é o nome que lhe dou porque ela é, realmente, uma maravilha. Da entrada da ilha, no topo da montanha, desço por escadas de pedra negra, entalhadas na floresta, até chegar a grutas cheias de esconderijos, rodeadas por flora exuberante, verdejante, tudo é verde e tudo é azul porque a floresta se une ao mar. Mar brilhante, transparente, tocando na erva florescente numa baía. As pessoas apanham sol, as pessoas protegem-se do sol na sombra das montanhas que rodeiam o mar. Eu, eu por mim brinco. Brinco ao elástico e o elástico é um círculo mágico de símbolos brilhantes de onde nascem fadas. Estou com os meus amigos e os meus amigos são crianças, nunca os vi antes mas eles são meus amigos, todos somos crianças.

                Ela tem o cabelo loiro entrançado, desde o topo da cabeça até à cintura. Ela é um pouco gorda e tem calções de ganga e uma t-shirt da Minnie toda suja, que mal lhe cobre a rotunda barriga parasitada e aquosa.

                Ele tem a pele morena e a cara comprida, cavalar, cabelo escuro e denso. Ele tem calções de ganga e uma t-shirt branca toda suja, demasiado comprida, que lhe cobre o torso macilento e ossudo. Ele tem uma máquina fotográfica e quer tirar-nos fotos na ilha maravilhosa, mas a minha roupa não é boa para fotografar, as sapatilhas brancas, a saia comprida de bombazine cor de rosa, a blusa com folhos cor de rosa, os meus cabelos longos e negros e longos e negros, oleosos pela seiva das plantas, orvalhados pela humidade do ar.

                “Porque não tiras fotografias à ilha?”

                “Porque a ilha não é interessante, só tem aquelas fumarolas”.

                Fumo sai de pontos estranhos das montanhas, como se a floresta estivesse em chamas, pequenos incêndios localizados que são apenas o bafo da terra, cheio de enxofre e tóxicos. Estão lá longe. Aqui faz frio.

                De repente, o meu amigo salta para a frente. Alguma coisa aparece na baía e essa coisa parece ser motivo de maior para se tirar fotografias. Uma coisa. Uma coisa enorme. Sáurio potente, escamoso, escuro, de patas triangulares, com um enorme chifre no focinho diabólico, todo ele cheira a mar e enxofre, todo ele cheira às baleias que caçámos com arpão na falésia, todo ele cheira ao sangue mordido pelos cães de água, o monstro é o ventre da baleia morta, o monstro é a cria da baleia morta que não nasceu porque matámos a baleia, a baleia está morta.

                Claro que como isto é a ilha maravilhosa, claro que o monstro é um monstro da paz e nada de mal fará a ninguém. Todos correm para o ver e as pessoas que apanham sol à beira da água levantam as cabeças. De onde estou parece que o monstro gigantesco é do mesmo tamanho das pessoas, ele muda de tamanho conforme as pessoas mas ainda assim é enorme, enorme como a própria ilha. Inclina a focinheira de narinas latejantes sobre um banhista e, boca de rodas dentadas, beija-lhe a cabeça, morde-lhe a cabeça, absorve o seu corpo, a sua alma, brevemente o banhista é só um saco de pele e ossos.

                Só aí é que as pessoas gritam e todos tentam fugir.

                O resto é muito rápido. Todas as pessoas sofrem o processo de absorção, o monstro cresce e diminui, as pessoas morrem e são sangue e ossos e são sacos de plástico pretos, são sacos do lixo perdidos na poluição do mar, só faltamos nós, só faltamos nós, grito para a minha amiga entrar na gruta, escondo-a numa reentrância coberta de ervas daninhas todas secas. Eu escondo-me ao lado, junto a uma parede de estalagmites, poças de água e musgo tumefacto. O monstro aproxima-se e o seu cheiro é marinho, o monstro aproxima-se e eu penso “come, come a minha amiga, come-a toda, papa-la”, mas é a mim que ele me come, morde-me a cabeça e arrasta-me, eu gritando pelo chão, eu vejo-me a ser transformada num saco e o monstro labe os beiços e caminha para dentro de água, a sua cauda cianótica suja de fezes abanando de felicidade pela chacina.

                Mas eu ainda estou na gruta. A minha amiga foge, foge pelas escadas acima e à minha frente fecha-se a porta de uma cabine telefónica. Abro-a. Corro atrás da minha amiga, suas tranças abanando, eu gritando “ainda aqui estou, ainda estou viva!”

                Chego a ela, ela está a tentar abrir as portas de vidro que nos darão acesso ao metro e nos permitirão fugir da ilha (maravilhosa ilha, maravilhosa), eu grito “espera por mim, ainda aqui estou, ainda estou viva!”, e toco-lhe, abraço-a por trás, mas quando lhe toco não toco porque eu já não existo, minhas mãos atravessam as tranças loiras, meu corpo passa pelo meio da barriga porcina, meus cabelos negros misturam-se com a carinha torta e pálida da minha amiga e eu grito “ainda aqui estou, ainda estou viva!”, mas não estou porque a minha voz não existe e eu morri quando o monstro me arrastou pelas ervas e agora o meu corpo é nada, resta apenas o que eu sou, mas ninguém pode ver isso.

                Ela atravessa as portas automáticas, que finalmente se abrem. Oiço o metro a chegar ao longe. Ela corre, as portas fecham-se. Não as posso atravessar.

                Só eu, só eu aqui. Eu na ilha maravilhosa.