segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Trauma de Dóris Piedade











O Trauma de Dóris Piedade


                Terça-Feira
               
O doutor pediu-me que escrevesse um diário, pelo menos durante um mês. O doutor compreende o meu problema, mas quer que eu analise o problema dentro de mim e eu não estava a conseguir e então ele disse-me “escreve um diário” e eu achei bem, portanto estou a escrever. Perguntei-lhe “quantas vezes por semana devo escrever no meu diário?” e ele respondeu “tantas vezes quanto quiseres, Dóris”, mas eu perguntei “mas quantas exactamente é que tenho de escrever para perceber o problema dentro de mim” e ele pensou um pouco e disse pelo menos duas vezes por semana. Decidi escrever às terças e às quintas porque é quando tenho a tarde livre na faculdade e os meus amigos não vão sair, então estou completamente disponível para ligar o computador e escrever um bocado. Claro que aí não posso jogar tanto, mas eu quero perceber o problema dentro de mim e curar-me.

                Para o caso de alguém ler este diário (não é secreto, mas também não o vou por na internet) se calhar convém dizer quem é que eu sou, para se perceber quem é que eu sou: o meu nome é Dóris Piedade, tenho vinte e tantos anos, estudo programação e tenho um problema. Comecei a ir ao doutor quando a mamã foi internada, mas depois percebeu-se que o meu problema não estava relacionado com a mamã e por isso continuei lá. A questão aqui é que eu não posso ser olhada pelas pessoas. Eu não posso dar nas vistas, mas isso parece-me até uma coisa normal, porque eu sou normal, eu sou igual aos outros, portanto não faz sentido que olhem para mim, mas as pessoas olham e eu tenho medo e eu entro em pânico, mas graças ao doutor e aos comprimidos já consigo lidar com isso melhor e posso ir sair com os meus amigos.

                A mamã foi internada há muitos anos quando teve uma crise de qualquer coisa e ameaçou o papá e mais outras tantas pessoas com uma faca de trinchar. Eu ia visitá-la, mas depois de algum tempo percebeu-se que ela nunca mais me ia reconhecer, então deixei de ir visitá-la e depois vim para a faculdade e vivo sozinha e nunca mais a vi. Quase nunca vejo o papá, mas não faz mal porque ele está sempre a criticar a cor do meu cabelo e sempre com medo que eu fique igual a mamã e o tente matar com uma faca ou com outro objecto que esteja por aí à mão de semear. Não, eu nunca vou ficar igual à mamã e tentar matar alguém porque isso ia significar que tinha de ir à polícia e depois ao tribunal e depois à televisão e toda a gente ia olhar para mim e eu provavelmente ia morrer antes de se chegar a alguma conclusão, ia morrer de vergonha e de pânico e se calhar era o ideal (morrer), mas eu ainda acho que o doutor me vai conseguir ajudar e que vai correr tudo bem.

                Não há nada que me obrigue a ir jogar PS, até porque eu não jogo online para não ter de falar com as pessoas, mas a única coisa que eu gosto (acho eu) é terminar os jogos e o que estou a jogar agora é muito difícil, então vou parar de escrever para ir jogar e tentar chegar a mais um save. Até porque eu não sei escrever e sai tudo errado, mas espero que escrevendo consiga perceber o problema, o problema que eu tenho, o problema dentro de mim. O doutor e eu até brincamos com ele às vezes e dizemos que é “O Trauma da Dóris”.

                Quinta-Feira

                Hoje os meus colegas quiseram ir almoçar todos juntos e disseram-me para ir, não sei porquê, porque eles nem sequer são os meus amigos, e eu disse que ia porque se dissesse que não ia eles iam falar de mim e dizer “a Dóris nem sequer vem almoçar connosco, a Dóris é mesmo parva” e eu não consigo suportar a ideia de que falam de mim e de que eu eventualmente poderia ser uma pessoa sobre a qual todos falam. Não perguntei nada a ninguém, nem disse nada para ver se eles não davam por mim, por isso só depois descobri que a ideia que eles tinham de ir almoçar fora era ir comprar tortas Dancake no supermercado e um pack de garrafas de Mini.

                Ainda bem, acho eu, porque eu vivo longe do meu papá e ele manda dinheiro todos os meses e eu tenho de o poupar bem para pagar a renda e a comida, a renda também não é assim tanta porque é só um T0, mas posso sempre poupar na comida, então achei bem que fôssemos comprar tortas Dancake. Eu não queria torta, porque eu não gosto muito de doces, preferia antes uma salada ou uma sandes de salmão, mas tive medo que eles olhassem para mim e achassem estranho, tive medo que os meus colegas depois dissessem “a Dóris é tão estranha, prefere comer peixe”, então fui com eles para o corredor dos doces e depois disseram-me “Dóris, podes ir buscar a cerveja?” e eu fui.

                Os meus colegas são simpáticos para mim quase sempre e com eles posso falar dos jogos que jogo, que não posso falar com os meus amigos porque eles não percebem isso e só querem saber de ir sair. Mas, mesmo assim, eu acho que eles me acham diferente das outras pessoas e olham para mim com um ar estranho, mas graças aos comprimidos consigo deixar que eles olhem para mim e, mais ou menos, ignorar. Por isso, achei que não ia fazer mal separar-me um bocadinho deles para ir buscar as cervejas, eles não iam fazer como as miúdas da escola que me deixavam sozinha na casa de banho e depois desapareciam, eles não iam fazer como as miúdas da escola que não esperavam por mim nos intervalos e acho que eles até são boas pessoas, embora nunca possam saber do meu trauma. Por isso quase nunca digo nada, para ter a certeza de que passo desapercebida e que me misturo com eles. Também é estranho uma rapariga estar sozinha entre as aulas, por isso tenho de me juntar a um grupo. Ainda bem que é um grupo que tem uma rapariga, porque assim não sou a única rapariga no grupo. E ainda bem que o grupo não é muito grande, porque assim ninguém olha para nós quando passamos na rua.

                Fui buscar as cervejas como me pediram, mas não correu como eu estava à espera, porque deu um anúncio nos altifalantes do supermercado, na verdade era só para chamar uma patinadora à caixa central, mas eu pensei que era para me chamarem a mim, então comecei a entrar em pânico e as lágrimas escorriam-me pelos olhos e eu tentava pará-las porque se a maquilhagem borrasse e se borrasse eu ia ficar horrível e toda a gente ia olhar para mim. Então encostei-me aos congelados e estive ali a apanhar com um bocadinho de fresco e a tentar acalmar-me e fazer como o doutor me disse, “grounding” é como se chama, então procurei ouvir três coisas diferentes, cheirar três coisas diferentes, tocar três coisas diferentes e quando os meus colegas vieram ter comigo eu estava com um pacote de filetes de pescada congelados na mão e eles acharam estranho e riram-se e eu quis morrer outra vez.

                Mas não morri e depois comprámos as tortas que eles queriam e as cervejas e fomos para o jardim e estivemos lá a conversar, bem, eles a falar e eu a ouvir e foi divertido e agora estou em casa a escrever e daqui a bocado vou jogar, porque ainda não consegui passar o nível.

                Terça-Feira

                No Sábado fui sair com os meus amigos, como saio todos os Sábados. Costuma correr sempre muito bem, porque por alguma razão as bebidas não me fazem bezana e todos os meus amigos ficam bezanos e não se lembram de nada do que eu fiz ou disse ou se sequer estive lá. Acho que só apanhei uma, só uma vez, que foi quando bebi duas garrafas de vinho e depois vomitei tudo apesar de me lembrar do que se passou sei que foi uma grande vergonha. Felizmente, fiz tudo sem que ninguém desse por nada e fui vomitar e voltei e já estavam todos a ir embora. Eles iam deixar-me sozinha, porque os meus amigos são assim, portanto tenho sempre muito cuidado para não me afastar muito.

Os meus amigos são todos muito parecidos uns com os outros e, felizmente, eu também sou parecida com eles. Todos têm os cabelos coloridos como eu e discutem maneiras de pintar e cortar os cabelos. Todos vestem de preto como eu e as raparigas usam todas saias como eu. Se calhar eu não devia dizer “como eu”, porque na verdade eu é que sou como eles, que é o que devia ser, porque eu devia ser igual a toda a gente, é o meu sonho: ser igual a toda a gente, diluir-me no meio de toda a gente e ninguém dar por mim.

Apesar de tudo, as pessoas reparam em mim a toda a hora. No Sábado também estava lá o Pedro e eu cada vez gosto menos do Pedro, embora ele diga que gosta de mim. O Pedro é muito alto, então se eu andar só com ele toda a gente ai dizer “olhem aquele casal tão diferente, olhem aquele par de jarras”. O Pedro não se importa com essas coisas, mas ele também não sabe do meu trauma porque eu nunca lhe contei, como aliás nunca contei a ninguém porque se contar vão todos ter pena de mim e vão dar-me atenção. Só pensar nisso me deixa um pouco nervosa.

                Tudo teria corrido bem no Sábado, quando fomos sair, porque estava toda a gente muito bêbada e ninguém reparou que eu só bebi uma imperial, portanto ninguém me ia perguntar “Dóris, não queres beber mais nada?” nem ninguém ia dizer “és mesmo fraca Dóris, não bebes nada!” Mas não correu tudo bem, porque quando saímos do bar para ir apanhar o barco para casa reparei que estava um velho a atravessar a rua e a olhar para mim. O grande problema é que quando entrámos no bar, umas horas antes, eu tinha visto o mesmo velho a atravessar a rua e ele olhou para mim da mesma maneira. Agora que penso nisso, talvez isto não faça sentido, mas o que eu pensei na altura é que ele tinha estado à minha espera para que, quando eu saísse do bar, voltasse a atravessar a rua para olhar melhor para mim. Comecei a tremer e o Pedro agarrou-me e eu tremi mais porque não quero que ninguém pense que sou especial por o Pedro gostar de mim, mas depois reparei que os meus amigos não estavam a dizer coisa com coisa e foi um alívio, porque soube que eles não estavam a pensar em mim.

                Tudo o que eu quero é que ninguém pense em mim. Porque eu sou igual às outras pessoas, eu sou exactamente igual, só me visto de preto e tenho os cabelos às cores para ser igual aos meus amigos e porque queria ser igual à Cláudia, a Cláudia era minha amiga e era uma pessoa normal. Eu como também sou uma pessoa normal, igualzinha às outras, fiquei igual à Cláudia. Normal. Normalóide. Perfeitamente normal.

Quinta-Feira

Hoje saiu uma expansão nova de um jogo que gosto, então fui ao centro comercial pedir para reservarem, porque não tenho cartão de crédito e não posso comprar na net. Gosto de ir ao centro comercial. Há lá tantas pessoas e todas são diferentes umas das outras mas, no meio da confusão, parecem-me todas iguais.

É um dos poucos lugares onde me posso diluir, desfazer no meio da multidão e deixar de ser eu mesma, para passar a fazer parte de todos. Sei que no meio da confusão ninguém vai reparar em ninguém e posso andar relaxada, ninguém me vai olhar, ninguém vai olhar para mim, ninguém vai reparar se o meu passo vai certo com o dos outros como faziam as miúdas da escola. Foi por isso que fiquei amiga da Cláudia, porque conseguia acertar o passo com ela e brincávamos as duas ao mesmo tempo e ela percebia-me e era tudo exactamente como devia ser. Ao lado da Cláudia ninguém dava por mim e quando alguém reparava que eu estava lá ela punha-se à minha frente e não deixava que me vissem. Mas depois de a mamã ser internada ela foi para o Canadá, felizmente deixou-me com outros amigos dela que também eram coloridos e vestidos de preto e tinham penteados como eu e disse “com eles, ninguém vai olhar para ti” e sorriu e deu-me a mão uma última vez e depois foi-se embora e eu nunca me despedi dela porque o aeroporto é em Lisboa e o papá não me levou.

Às vezes penso como seria bom andar com o passo acertado pelo da Cláudia no meio deste caos, rodeadas de pessoas cheias de compras e sem nenhum objectivo sem ser o de andar com o passo certo.

Esperei na fila como toda a gente e senti-me igual a toda a gente. Reservei o jogo e fiquei contente. Depois o Pedro ligou-me a saber onde é que eu estava e eu pensei “devia deitar fora este telefone mas preciso dele para falar ao papá e ao doutor”, mas não lhe disse isto, disse-lhe que ia para casa e ele perguntou se podia ir lá ter mas eu disse que estava muito cansada, por isso ele não vem e posso passar a tarde a jogar, porque entretanto cheguei a um nível novo que é muito mais difícil do que o anterior e que tem um boss complicado no fim, segundo o que tenho lido na net.

Terça-Feira

Fomos sair no Sábado e correu tudo bem, desta vez não fomos a Lisboa, portanto cheguei mais cedo a casa e consegui dormir bem. Acho que o doutor vai ficar contente por saber que o meu pesadelo não tem aparecido e que os comprimidos novos têm funcionado. Para que fique registado, o meu pesadelo é sempre o mesmo e apareceu a primeira vez quando aconteceu aquilo com a mamã e é assim:

Estou com a Cláudia e o papá eles começam a arrancar-me os cabelos todos. Não dói nada e os cabelos saem às mãos cheias. Depois, eu como os cabelos todos, e sabem-me bem, mas quando dou por mim estou na escola e todas as miúdas estão a rir-se a sussurrar umas para as outras e eu oiço elas a dizerem “fodeu o papá, fodeu o papá” e começo a gritar que é mentira mas os cabelos não me deixam falar e sufocam-me e a única maneira de acordar é lançar um grito.

É bom viver sozinha, porque assim ninguém ouve o grito.

No entanto, na Segunda-Feira (portanto, ontem) aconteceu algo muito estranho que me perturbou, apesar de não ter perturbado o suficiente para eu ter o sonho. Tinha ido à casa de banho entre duas aulas da tarde e estava tudo bem porque os meus colegas estavam a conversar do outro lado do corredor e não se iam embora. Mas quando pus o sabonete nas mãos para as lavar, carreguei no botão da torneira e não saiu água. Então comecei a pensar que ficaria ali para sempre com sabonete nas mãos sem as poder lavar e sem poder tirar aquilo e ia ficar toda pegajosa e não ia poder ir às aulas e senti que ia entrar em pânico, mas consegui pensar melhor e fui experimentar outra torneira e essa já funcionou.

Foi um grande alívio e os meus colegas olharam para mim de maneira estranha quando saí, porque se calhar vinha a sorrir e eu tento nunca sorrir para não ficar nem demasiado bonita nem demasiado feia, tal como uso maquilhagem por essa razão, tal como tento não chorar, ou dar gargalhadas. Porque se a minha expressão mudar podem dizer “afinal a Dóris é gira!” ou pensar “afinal a Dóris é mesmo uma aventesma!” e eu não ia suportar que pensassem qualquer uma dessas coisas, porque o que eu quero é ser exactamente igual a todos os outros.

Mas ficou tudo bem, porque a aula seguinte era Álgebra e ninguém gosta de Álgebra, então esqueceram-se de mim por causa da aula. Por isso é que gosto deste tipo de aulas difíceis. Não sou muito esperta (e ainda bem), também não sou muito burra, estas aulas para mim não são um desafio. São apenas uma forma de fazer com que os outros se esqueçam de mim.

Quinta-Feira

Os meus amigos quiseram ir sair ontem, apesar de eu sair tarde das aulas e de estar cansada e querer jogar, mas eu não podia dizer que não, não fossem eles dizer “a Dóris é mesmo croma, nem sequer vem sair aos dias de semana”. Então eu fui e eles ficaram bêbados e eu fiquei a vê-los a cantar e a dançar de braço dado. Os meus amigos se calhar não são mesmo meus amigos, não como a Cláudia ou o papá ou o doutor. Bem, o doutor é um tipo diferente de amigo, porque é uma pessoa a quem pagamos para ser nossa amiga, mas não interessa porque posso falar com ele das coisas.

Os meus amigos estão sempre aos gritos e eu grito também para que ninguém pense que não estou no grupo, mas na verdade são muito mais tímidos do que se possa imaginar. Não conhecem mais ninguém e estão sempre uns com os outros, apesar de dançarem na rua e escreverem frases anarcas nas paredes. Tímidos e rebeldes, é o que eu acho. Eu também sou tímida, na medida em que gostaria de viver dentro de uma bolha. Uma bolha de titânio, opaca, para que me tornasse invisível perto deles, em que ninguém me tocasse, ninguém falasse comigo, ninguém desse por mim, ninguém nem nada. Nada.

Só vou sair com eles para não dizerem nada sobre mim. Não sei se dizem alguma coisa do género “a Dóris é mesmo esquisita” quando não estou com eles, mas se estiver a maior parte do tempo com eles isso significa que não podem dizer nada, pelo menos à minha frente.

Também estava lá o Pedro e ele deu-me a mão. Acho que os meus amigos pensam que somos namorados, mas não somos porque eu não gosto dele, apesar de ele dizer que gosta de mim e aparecer na minha casa.

Terça-Feira

No Domingo o Pedro apareceu na minha casa. Disse que me queria ver, mas eu sei o que ele quer quando vem a minha casa. Quer foder, mas ele diz que é “fazer amor”, mas não pode ser porque eu não o amo, eu não gosto dele. Depois, quando ele está em cima de mim eu não digo nada nem faço nada, só estou com os olhos abertos a ver o seu corpo quase sem pêlos e depois lembro-me daquela vez em que estive com o outro e não disse nada também.

Parece que já foi há mil anos, numa época em que eu era um neanderthal, mas acho que foi há menos tempo do que me parece. Já não me lembro bem como ele se chamava, Gonçalo, Bruno?, porque o doutor me deu comprimidos para esquecer. Mas ainda me lembro do meu pavor, que não podia dizer que não porque ele podia dizer às outras pessoas “a Dóris é mesmo parva”, mas porque não disse que não ele disse aos outros “a Dóris é mesmo puta” e lembro-me que ele dizia “tás a gostar? Tás a curtir?” e eu não dizia nada porque não sabia se tinha de dizer alguma coisa ou ficar calada, era a primeira vez que fazia aquilo e se não fizesse os meus amigos gozavam comigo e eu não ia suportar isso.

Mas não suportei também o facto de aquela pessoa me ter agarrado e penetrado e feito mal à minha cabeça, não aguentei isso e depois tentei morrer, que era o melhor que eu podia fazer, porque me sentia partida, sentia que toda a gente olhava para mim na rua e comecei a ouvir vozes que diziam puta, puta, puta.

Com o Pedro é quase a mesma coisa, mas ele diz que gosta de mim e toda a gente pensa que somos namorados, então eu deixo que ele venha e não digo que não para que ninguém diga nada sobre mim ou sobre ele. Só sei que enquanto ele está aqui não posso jogar o meu jogo, nem estuda aquilo que preciso de estudar e tenho de ficar ao pé dele e ver um filme enquanto ele fuma cigarros de enrolar e ganzas e eu também não digo que não quando me oferece, apesar de não gostar.

Depois de ele se ir embora pensei em morrer outra vez.

Quinta-Feira

Eu nunca digo nada a ninguém, mas às vezes gostava mesmo de discutir assuntos com as pessoas, com os meus amigos ou com os meus colegas, ou até mesmo com o Pedro, mas tenho medo que me achem estúpida e digam “a Dóris tem ideias mesmo idiotas”. Por exemplo, porque é que no jogo das sete diferenças, a imagem diferente é sempre a que está por baixo, ou à direita, e nunca a que está por cima ou à esquerda. Como eu: porque é que eu é que sou diferente e não são os outros diferentes de mim, porque é que são os outros que olham para mim e não eu que olho para os outros. Se calhar é esse o meu problema, mas o meu trauma não me deixa olhar para os outros, porque tenho medo que os nossos olhares se cruzem e eles me façam mal e depois eu comece a chorar.

Outra pergunta que tenho, é porque é que o espaço se chama espaço. Será porque o espaço, o espaço sideral onde estão as estrelas e os planetas, é espaçoso? Porque há muito espaço entre cada objecto que orbita em volta de outro objecto? Tal como há um espaço infinito, um espaço demasiado espaçoso, entre mim e os outros, entre mim e uma vida em que ninguém olhe para mim.

Tenho de perguntar estas coisas ao doutor. Não sei se é suposto mostrar-lhe este diário ou não.

Sábado

Tenho sempre comigo, dentro da mala, um número de comprimidos suficientes para que possa morrer. Morrer em qualquer ocasião. Mas depois penso… Se eu morrer na estação do metro, vou causar problemas a toda a gente. Se eu morrer na ponte, vou causar problemas a toda a gente. Se eu morrer em casa e ninguém me encontrar, vou começar a cheirar mal e têm de desinfectar o prédio.

Nem na morte deixo de causar problemas.

Mas, se morrer, se calhar já nada disso vai importar.  

domingo, 15 de maio de 2016

A Transformação













A Transformação



                Naquela altura, pensava realmente que ia morrer. Quando percebi onde me encontrava, o desespero inicial começou a tomar a forma da constatação de que, realmente, ia morrer. Quando acordei não sabia se era dia, se era noite, a escuridão rodeava-me por todos os lados. Quando me tentei levantar, percebi que não podia. A posição horizontal era a única permitida. Palpei o que me rodeava, para constatar que era madeira. Madeira polida, cheiro a terra.

                Estava numa caixa.

                Gritei, bati-lhe com todas as minhas forças, mas nada me respondia, nada acontecia. E o cheiro a terra, o cheiro a terra tão forte, rodeando-me por todos os lados. Demorei algum tempo, mas depois compreendi: estava enterrado. Tinham-me enterrado vivo.

                Certamente que tinha sido o marido da minha amiga. A minha última memória antes deste universo de escuridão era uma discussão com este homem, que me tinha atacado com um pau. Provavelmente, tinha desmaiado e ele aproveitara-se para me colocar dentro desta caixa, um caixão improvisado, enterrando-me. Como me poderia salvar? Quantos palmos debaixo da terra estaria eu? Será que se gritasse bem alto, alguém viria para me desenterrar? Será que se usasse todos os meus músculos conseguiria romper a barreira que me separava da luz do dia? Tentei tudo isso, tentei, juro que tentei. Mas nada funcionou. E o ar começou a faltar-me, portanto decidi ficar quieto e aguardar a morte. Ela iria chegar. Brevemente? Seria brevemente? Ali em baixo não havia tempo. Apenas escuridão.

                Depois, vieram as formigas. Sentia as suas picadas por todo o corpo, comiam-me vivo. Estaria eu ainda vivo? Contorcia-me no pouco espaço que me tinha sido atribuído, cerrava bem os dentes para que elas não me entrassem na boca. Mas comeram a minha pele, mastigaram a minha carne, levaram pedaços de mim para a grande rainha instalada nos seus túneis.

                Depois vieram os vermes. Eu não os podia ver, mas sentia-os alimentando-se do meu abdómen. Podia perceber como se movimentavam, mas deixei-me estar parado. A posição que encontrei era a mais confortável possível. Deitado, braços ao lado do corpo. Depois, quando tentei levantar um braço para afastar os vermes, percebi que já não me podia mexer. Podia fechar a mão e sabia que algo estava nela. Algo sólido, duro, redondo. Uma semente. Por isso, deixei-me estar e pensei “que sirva o meu corpo para alimentar esta semente”. Afinal, já estava morto de qualquer forma. Nunca ninguém me iria buscar. Mesmo que viessem, encontrariam apenas um pedaço de carne roído pelos insectos.

                Os bichos tinham comido as minhas pálpebras e nunca mais poderia fechar os olhos. A dor era indizível, o sofrimento não cessava por um instante. Mas eu sabia que já tinha morrido e que, portanto, tudo iria acabar mais cedo ou mais tarde. O meu corpo serviria para a semente. Passei a amar aquela semente e, enquanto tive forças, sussurrava-lhe belas palavras. “Vais ser uma grande árvore, amiga”, “Vais sair daqui um dia destes”, “Vais poder ver a luz, eu nunca mais vou ver a luz.”

                Depois calei-me e não sei quanto tempo passou.

                Mas quando dei por mim, podia respirar de novo. De uma forma diferente, mas era algo como respirar. O ar rodeava-me e a luz do sol inundava tudo à minha volta. Estava cá fora? Acima da terra? Como poderia ter acontecido isto? Tentei observar o que me rodeava, mas via tudo de forma diferente. Não olhava para baixo nem para cima. Porque não tinha olhos, tinha deixado de ter olhos, com pálpebras ou pestanas. Não sentia mais o cheiro da terra. Mas podia sentir a terra debaixo de mim, tão confortável como o útero materno. Foi só depois de várias noites que compreendi que a semente tinha crescido e brotado da terra. E que, de alguma forma, a minha alma humana, a minha compreensão pessoal, tinha sido transferida para este novo corpo. Agora, eu era uma planta.

                Mais uma vez, desesperei. Estava vivo, estava livre da terra, mas não me podia mexer, não podia encontrar o marido da minha amiga para me vingar, não podia encontrar a minha amiga para a beijar, não podia ver, nem cheirar, nem comer, nem andar, nem ouvir, nem estalar os dedos dos pés. O meu corpo estava morto e sem o meu corpo não podia fazer nada. “Porque não me mataste, deus, em vez de me transformares nesta criatura obsoleta?”, perguntava.

                Mas o tempo passou e eu compreendi que ser árvore é um estado quase tão bom como ser homem. Passei a apreciar muitas outras coisas que nunca havia notado antes. Para começar, tudo o que eu precisava de fazer era alimentar-me e crescer. Alimentava-me da terra, da água, do sol. Passei a apreciar os longos dias de Verão da mesma forma que apreciava as grandes tempestades com suas trombas de água. Não havia mais tempo, apenas as estações que mudavam. Podia sentir a dor quando o vento me arrancava folhas, mas podia também dar-me ao luxo de não me importar. Porque tudo o que eu precisava de fazer era crescer. Não podia falar, mas tinha uma vontade própria que me fazia tentar comunicar com o mundo em redor. O vento ajudava-me, os pássaros ajudavam-me, as abelhas ajudavam-me. Vinham alimentar-se das minhas flores e dos meus frutos e assim levavam as minhas mensagens. Para quem? Não sei. Talvez outras árvores. Não havia mais nenhuma à minha volta que me fizesse companhia.

                Descobri a linguagem das plantas, conversando com a relva e com as florzinhas térreas junto ao meu tronco. Podia falar com o musgo e com os líquenes que se alimentavam da minha casca. As nossas conversas eram muito diferentes das que um homem teria com outro homem, ou com uma mulher, ou com qualquer criatura animada. Porque falávamos sobre como poderíamos crescer cada vez mais, ser mais fortes, libertar mais oxigénio, ser mais verdes. Falávamos sobre as nossas chuvadas preferidas e recordávamos os mais belos dias de sol, que tinham sempre brisas agradáveis. Falávamos daquelas vezes em que uma abelha se alimentou das nossas flores.

                Sendo uma árvore, nunca havia momentos tristes ou menos bons. Todos os momentos eram iguais, porque me alimentava do que me rodeava e tudo era agradável. Comecei a esquecer do que tinha sido a minha vida enquanto homem. E quanto menos me recordava do passado e de todo o sofrimento, mais as minhas raízes se expandiam e eu crescia, obedecendo ao desígnio oferecido a todas as plantas.

                Era feliz. Não há nenhuma árvore que não seja feliz.

                Neste novo corpo, também não conseguia perceber o tempo da mesma forma que os homens. Os dias, os meses, os anos, não era necessário conta-los. Sabia que a estação ia mudar pelas ligeiras diferenças na humidade, na temperatura, na luz. Como eu me havia tornado numa árvore de folha permanente, não havia muitas diferenças para mim entre o Inverno e a Primavera. Pássaros traziam mensagens de outras árvores, bem longe, cujas folhas caíam todas quando a temperatura descia. Eu calculava que fosse doloroso, mas compreendia também que para uma árvore todas essas coisas são apenas uma transformação e o sinal de que estamos a fazer tudo bem, para crescer, para não murchar, para não morrer.

                Por isso, não sei quanto tempo passou desde que eu havia sido enterrado vivo e o momento em que voltei a ver pessoas. Uma tarde, senti algo rasgando a minha casca, uma dor aguda que me recordou a vez em que havia sido consumido pelas formigas. Procurei saber o que se tinha passado. Era um casal de pessoas, um rapaz e uma rapariga, humanos, que escreviam as suas iniciais no meu tronco. Apesar da dor, senti-me bem. Afinal, eles tinham-me escolhido para simbolizarem o seu amor. Eu já não recordava bem o que era o amor, mas sabia que era uma coisa boa.

                No entanto, há tanto tempo que não via pessoas que quis saber como eram. Portanto, procurei vê-las. As árvores não têm olhos, mas é como se um desses órgãos existisse em cada ramo, em cada folha, em cada broto. Podemos ver tudo o que nos rodeia, apenas não nos interessa. Naquele dia, interessava-me ver as pessoas, portanto deixei cair uma das minhas folhas mais velhas à sua frente. E quando a folha passou, vi as suas caras. Recordações assolaram-me e fiquei espantado. A rapariga tinha os olhos do homem que me havia enterrado vivo. E o nariz da sua mulher. Aquela que havia sido minha amiga. Mas ela era mais velha do que eles algum dia haviam sido. Quanto tempo tinha passado? Dez anos? Cem? Duzentos? Aquela era, provavelmente, a descendente do homem que me tinha feito tanto mal.

                Por momentos pensei que finalmente poderia concretizar a minha vingança. Como me poderia vingar, enquanto árvore? Deixar cair um dos meus pesados ramos em cima da cabeça destes jovens, para que o seu sangue alimentasse as papoilas que cresciam debaixo da minha sombra? Mas veio uma brisa que trouxe pólens variados, de terras longínquas, e esqueci-me de tudo, mais uma vez. Afinal, de que serviria tirar a vida a uma pessoa que nada me tinha feito, sem ser um rasgão na minha casca? Tal como eu estava vivo, tal como eu tinha a bênção de ainda poder respirar e crescer, devia deixá-los respirar e crescer, para que um dia voltassem para debaixo da minha sombra e fossem, mais uma vez, felizes.

                Eles foram-se e os tempos continuaram a movimentar-se, sem que eu desse por eles. À minha volta fizeram construções. Colocaram bancos e brinquedos para as crianças. Escorregas, baloiços, essas coisas. Puseram uma vedação delimitando o espaço à minha volta, destruindo alguma da relva no processo. Mais tarde, apareceu uma criança muito pequena com os olhos do homem que me tinha enterrado vivo. Filho daquela rapariga que tinha escrito na minha casca?

                Nada mais interessava. Nada mais interessa. Tenho de me esquecer do que foi ser homem. Porque agora sou uma planta. Deixará de haver passado, tal como não há mais presente e nunca houve futuro. Farei como todas as outras plantas e crescerei, aproveitando o sol e a água, a terra e as abelhas.

                Eu sou uma árvore num jardim. A árvore que está no teu jardim. Estou sempre parada, é verdade. Mas sou feliz assim.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Princesa do Reino de Saskia

One of Alexandra Levasseur's Tormented Women
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Princesa do Reino de Saskia
 

                Não me lembro de ser criança. Procuro nos meandros da minha memória, buscando alguma recordação entre as circunvalações do meu cérebro, mas as minhas lembranças são sempre as mesmas. As festas, os bailes, a minha irmã. As festas, os bailes, mais uma vez a minha irmã. Por vezes, os meus pais. Mas eles não são mesmo os meus pais. Ela não é mesmo a minha irmã mais velha. Mas não me lembro de nada antes disso. Alguma coisa impede a minha memória. Quem seria a minha verdadeira família?

                Sei que durante muito tempo, pensava realmente que o rei e a rainha eram os meus pais. Pensava realmente que eu era uma princesa. A princesa mais nova, nunca uma potencial candidata ao trono enquanto a minha irmã existisse, mas ainda assim uma princesa. A bela e platinada princesa do Reino de Saskia. A irmãzinha da encantadora pretendente do Reino de Saskia. Mas um dia, isso recordo, a minha criada de quarto contou-me que não. Na verdade eu tinha sido adoptada a uma família pobre, camponeses?, comerciantes arruinados?, mendigos?, por um capricho da verdadeira princesa. Desde muito pequena que ela é assim: tudo o que pede lho é dado. E quando ela pediu uma irmã, deram-lhe uma. Escolheram a criança mais loira do reino, para parecer que fazia realmente parte da família. E educaram-na como princesa, para parecer que era mesmo uma. Mas, no fundo, não passava de uma pobre camponesa, arruinada ou mendiga, tomada sob a áurea asa da caridosa família soberana, sob a tutela de uma irmã ideal, aquela que nunca poderia ter tido se se mantivesse na sua origem.

                Mas por vezes penso que seria melhor nunca ter saído de lá. Talvez aí recordasse o que foi ser criança.

                A vida no palácio do Reino de Saskia é um suceder de dias que se repetem, com poucas variações entre eles. Todos os dias devo brincar com a minha irmã mais velha. Já não temos idade para brincar, então o que faço é assistir às suas provas de vestidos. Experimenta dezenas, todos os dias, de todas as cores que a retina humana consegue detectar. Os que gosta serão usados, todos, nos bailes do fim-de-semana. Os que não gosta são queimados, numa grande fogueira no pátio. Gosto de ver a fogueira. Sento-me à janela e vejo o fumo a subir, imaginando que sou eu própria nas chamas, que eu me transformei no fumo e que depois serei uma nuvem. Leve, branca, felpuda, uma nuvem que depois se vai transformar em chuva. Uma nuvem livre, como todas as nuvens. Mas a minha mente foi talhada com o cinzel do dever e eu sei que enquanto a minha irmã mais velha for viva, não poderei deixar de brincar com ela aos vestidos e aos bailes.

                Todos os fins-de-semana temos bailes. Ou festas. Sexta, Sábado, Domingo, entre as dezanove horas e as sete horas do dia seguinte. Sou obrigada a ficar todas essas horas no meio das pessoas que, desinteressadas, fazem passos de dança para alegrar a verdadeira princesa. Muitas pessoas já me disseram em segredo, muitas pessoas contam-me segredos quando a minha irmã está distraída. Ninguém gosta de vir às festas, nem aos bailes, porque são monótonos e aborrecidos. A minha irmã dança com todos os homens presentes e a mais ninguém é permitido dançar. Os meus pais, o rei e a rainha, observam tudo dos seus tronos elevados, bebendo um sumo de uva semelhante a sangue. Sorriem, pois a sua menina está feliz. Mas para todos os outros é um sacrifício. Quem recebe um convite tem de vir. Todos os homens que recebem o convite têm de dançar com a princesa do Reino de Saskia. Mas, segundo dizem, ela dança muito mal e pisa os pés de toda a gente.

                Posso dizer que nunca me passou pela cabeça dançar com alguém. Mas um dia, um novo convidado apareceu e esse, sem saber das regras, convidou-me para dançar. A minha irmã mais velha apareceu por trás dele e gelou-me os movimentos com o seu olhar marítimo. Agarrou-o pelos ombros e começou a dançar com ele, explicando-lhe resumidamente as regras daqueles bailes. Eu fiquei a ver, mas não me esqueci do homem. Parecia ser uma pessoa simples e muito diferente de nós. Os seus cabelos eram negros, quase azuis, os seus olhos eram negros, quase castanhos, a sua pele era branca, quase negra de tanta palidez por cima das veias. Enquanto dançava com a princesa do Reino de Saskia olhava para mim, uma e outra vez. Não, não me poderia esquecer dele. Mas não era competência de uma irmã mais nova fitar o aspecto de um homem. Não. Não era competência dela tentar ver a alma de um homem. Mas sinto que nessa altura ele viu a minha, saindo pelo topo da minha cabeça.

                Uns dias depois, os meus pais chamaram-me à sala do trono. Sentados nos seus assentos, rebuscados entre os detalhes da madeira, disseram-me que eu me ia casar. Como?, perguntei eu. A minha irmã mais velha, depois de falar com o homem da pele pálida, decidiu que eu me ia casar. Ela queria ver uma grande festa de casamento. Por isso, no próximo fim-de-semana, as três noites iam ser em minha honra e eu seria autorizada a dançar. O meu coração parou por um momento, mas logo voltou a bater. Quem seria aquele homem misterioso? Será que eu poderia gostar dele? Eu não sabia gostar de nada, a única coisa que apreciava era o fumo da fogueira. Tinha medo, mas no meio do receio podia ver um pirilampo que me guiava até à liberdade que tanto ansiava. Talvez fosse essa a solução.

                Esperei pelo baile seguinte sem me conseguir ter quieta, nem na cama, nem nas cadeiras, nem à hora do jantar. A minha irmã mais velha impedia-me de comer tudo aquilo que queria, dizendo que eu tinha de estar magra para os vestidos me servirem. Ela escolheu-os, todos vestidos verdes que ela não queria mas que tinha salvo da fogueira para me dar. Com este gesto ela pensava ser a mais caridosa das princesas, enquanto que eu seria apenas uma mísera aproveitadora da sua boa vontade. Não pensei muito nisso. Tudo o que queria era experimentar dançar com aquele homem, o homem da pele pálida.

                Quando chegou o dia, descobri que ele se iria sentar ao meu lado no jantar. Assim poderia falar com ele antes da dança! Ele estava ao meu lado direito, eu ao lado direito da rainha, que estava do lado direito do rei, do lado direito da mais velha das princesas do Reino de Saskia, sentada no centro da mesa, presidindo as hostilidades como sempre. Todos estavam distraídos quando o homem me começou a explicar, muito baixinho, ao ouvido, a verdadeira razão pela qual tinha vindo.

                Ele na verdade fazia-se passar por nobre estrangeiro, quando a realidade era que ele fazia parte de uma célula revolucionária que procurava derrubar a família real do Reino de Saskia. Tudo se iria passar nessa noite, mas ele iria salvar-me, pois todos sabiam que eu não era uma verdadeira princesa. Poderia juntar-me à sua revolução e ajudar a criar um novo governo, um governo sem desperdícios, sem festas, sem raparigas mimadas que tinham tudo o que queriam, até mesmo uma irmã. Depois de me contar isto, os seus lábios finos contorceram-se num sorriso incompleto. Eu podia ver a minha cara reflectida nos seus olhos. A minha cara irradiava uma espécie de esperança, um sentimento completamente novo que eu nunca tinha experimentado. O sentimento de uma potencial liberdade, a perspectiva de me transformar em fumo. Sorri também. Tudo ia correr bem.

                Chegou a hora da dança. O homem pálido perfilou-se ao meu lado; a minha irmã e o pai do outro lado; a rainha mais atrás, no centro. Começámos a dançar os passos do minuete encantatório que simbolizava o início das festas. Eu e o homem, a minha irmã e o pai e a rainha sozinha, fingindo que tinha um par, balançando o seu corpo gorduroso todo enfeitado de brilhantes coloridos. Eu sentia-me envolvida num abraço quente, num amor profundo, como se finalmente tivesse reencontrado a minha família perdida há tanto, tanto tempo… Mas à minha volta sentia os frios olhos da minha irmã, sempre pairando sobre mim como um abutre incorpóreo. No final da dança, ela puxou-me pela mão para trás de uma cortina. Sorrindo, disse

                Já não te vais casar. Não quero.

                Depois levou-me até ao meu quarto e trancou-me lá dentro. Mas eu não me sentia abalada de nenhuma maneira. Porque sabia o que o homem pálido me tinha dito: devia mudar de roupa e esperar no meu quarto com a janela aberta. Ele viria buscar-me. Troquei o vestido por umas calças de ganga e uma camisa, prendi o meu cabelo num rabo-de-cavalo. Cheguei a considerar cortá-lo, mas não tinha uma tesoura no meu quarto. Os objectos cortantes eram sempre levados pelas criadas quando chegava a noite. Só nessa altura percebi que era para me impedirem de alterar o meu corpo de alguma forma, quer com marcas quer com a própria morte. Eles sabiam que eu nunca poderia ser feliz ali. Mas provavelmente sabiam que ia chegar o dia em que eu ia ser nuvem.

                Esse dia chegou. O homem pálido encostou um escadote de metal à janela e disse-me para descer. Depois entrámos no seu jipe, onde outros companheiros o esperavam, e fomos até ao acampamento dos revolucionários. Lá ardiam fogueiras, lá havia famílias vestidas com calças, com cabelos cortados, com animais ao colo. Lá as pessoas tinham olhos verdes, castanhos e negros, como se fossem as nossas criadas. Mas não eram criadas, porque eu agora era parte deles. Sentaram-me junto a uma fogueira e começaram a cantar-me canções sobre a sua luta. Uma delas era a minha história. A menina que tinha sido raptada para ser o bicho de estimação da princesa. Tudo aquilo me divertia. Cheguei mesmo a dançar, abraçada ao homem pálido.

                Subitamente chegou um grande camião com uma jaula na parte de trás. Lá dentro vinha a família real do Reino de Saskia, com os seus fatos de baile esfarrapados, chorando com os olhos vidrados. Para eles, qualquer coisa fora da sua realidade era como viajar para um planeta cheio de monstros carnívoros. Os revolucionários ordenaram-lhes que saíssem do camião e perguntaram-me o que fazer com eles. Disse-lhes para os sentarem ao meu lado. Olhavam para mim como se nada fizesse sentido, como se eu tivesse deixado de ser a mesma pessoa. Talvez tivesse…

                Um deles disse “Trouxemos a comida da festa!” e começaram a dispô-la à nossa frente, ainda nos pratos de porcelana oriental do palácio. Eu estava cheia de fome, portanto peguei nos talheres de prata e comecei a comer de tudo um pouco. A minha irmã mais velha e os outros estavam amarrados e olhavam para mim com um ar incrédulo. Finalmente, cheguei à sobremesa. Era um pudim, um pudim flan enorme. Tirei um pedaço com o garfo e a minha irmã começou a gritar

                Esse é o meu pudim preferido! Não o podes comer! Dá-me! Dá-me!

                Os seus gritos pareciam vir do fundo do seu estômago, cheios de ácido, envolvidos em lágrimas de raiva e sal. Debatia-se, cara toda vermelha, para se libertar das cordas que a amarravam. Rebolou-se sobre si própria, estragando o vestido, sem conseguir respirar por causa do ranho que lhe escorria das narinas, gritando que queria o pudim, que o queria, que não me deixava casar se eu não lho desse.

                Comi uma dentada e atirei o resto para a fogueira à minha frente. Vi o fumo cinzento a desfazer-se na direcção da lua. Ia transformar-se numa nuvem. Eu estava feliz. Pela primeira vez na vida, espreguicei-me sem pedir licença e sorri para o céu.