domingo, 15 de maio de 2016

A Transformação













A Transformação



                Naquela altura, pensava realmente que ia morrer. Quando percebi onde me encontrava, o desespero inicial começou a tomar a forma da constatação de que, realmente, ia morrer. Quando acordei não sabia se era dia, se era noite, a escuridão rodeava-me por todos os lados. Quando me tentei levantar, percebi que não podia. A posição horizontal era a única permitida. Palpei o que me rodeava, para constatar que era madeira. Madeira polida, cheiro a terra.

                Estava numa caixa.

                Gritei, bati-lhe com todas as minhas forças, mas nada me respondia, nada acontecia. E o cheiro a terra, o cheiro a terra tão forte, rodeando-me por todos os lados. Demorei algum tempo, mas depois compreendi: estava enterrado. Tinham-me enterrado vivo.

                Certamente que tinha sido o marido da minha amiga. A minha última memória antes deste universo de escuridão era uma discussão com este homem, que me tinha atacado com um pau. Provavelmente, tinha desmaiado e ele aproveitara-se para me colocar dentro desta caixa, um caixão improvisado, enterrando-me. Como me poderia salvar? Quantos palmos debaixo da terra estaria eu? Será que se gritasse bem alto, alguém viria para me desenterrar? Será que se usasse todos os meus músculos conseguiria romper a barreira que me separava da luz do dia? Tentei tudo isso, tentei, juro que tentei. Mas nada funcionou. E o ar começou a faltar-me, portanto decidi ficar quieto e aguardar a morte. Ela iria chegar. Brevemente? Seria brevemente? Ali em baixo não havia tempo. Apenas escuridão.

                Depois, vieram as formigas. Sentia as suas picadas por todo o corpo, comiam-me vivo. Estaria eu ainda vivo? Contorcia-me no pouco espaço que me tinha sido atribuído, cerrava bem os dentes para que elas não me entrassem na boca. Mas comeram a minha pele, mastigaram a minha carne, levaram pedaços de mim para a grande rainha instalada nos seus túneis.

                Depois vieram os vermes. Eu não os podia ver, mas sentia-os alimentando-se do meu abdómen. Podia perceber como se movimentavam, mas deixei-me estar parado. A posição que encontrei era a mais confortável possível. Deitado, braços ao lado do corpo. Depois, quando tentei levantar um braço para afastar os vermes, percebi que já não me podia mexer. Podia fechar a mão e sabia que algo estava nela. Algo sólido, duro, redondo. Uma semente. Por isso, deixei-me estar e pensei “que sirva o meu corpo para alimentar esta semente”. Afinal, já estava morto de qualquer forma. Nunca ninguém me iria buscar. Mesmo que viessem, encontrariam apenas um pedaço de carne roído pelos insectos.

                Os bichos tinham comido as minhas pálpebras e nunca mais poderia fechar os olhos. A dor era indizível, o sofrimento não cessava por um instante. Mas eu sabia que já tinha morrido e que, portanto, tudo iria acabar mais cedo ou mais tarde. O meu corpo serviria para a semente. Passei a amar aquela semente e, enquanto tive forças, sussurrava-lhe belas palavras. “Vais ser uma grande árvore, amiga”, “Vais sair daqui um dia destes”, “Vais poder ver a luz, eu nunca mais vou ver a luz.”

                Depois calei-me e não sei quanto tempo passou.

                Mas quando dei por mim, podia respirar de novo. De uma forma diferente, mas era algo como respirar. O ar rodeava-me e a luz do sol inundava tudo à minha volta. Estava cá fora? Acima da terra? Como poderia ter acontecido isto? Tentei observar o que me rodeava, mas via tudo de forma diferente. Não olhava para baixo nem para cima. Porque não tinha olhos, tinha deixado de ter olhos, com pálpebras ou pestanas. Não sentia mais o cheiro da terra. Mas podia sentir a terra debaixo de mim, tão confortável como o útero materno. Foi só depois de várias noites que compreendi que a semente tinha crescido e brotado da terra. E que, de alguma forma, a minha alma humana, a minha compreensão pessoal, tinha sido transferida para este novo corpo. Agora, eu era uma planta.

                Mais uma vez, desesperei. Estava vivo, estava livre da terra, mas não me podia mexer, não podia encontrar o marido da minha amiga para me vingar, não podia encontrar a minha amiga para a beijar, não podia ver, nem cheirar, nem comer, nem andar, nem ouvir, nem estalar os dedos dos pés. O meu corpo estava morto e sem o meu corpo não podia fazer nada. “Porque não me mataste, deus, em vez de me transformares nesta criatura obsoleta?”, perguntava.

                Mas o tempo passou e eu compreendi que ser árvore é um estado quase tão bom como ser homem. Passei a apreciar muitas outras coisas que nunca havia notado antes. Para começar, tudo o que eu precisava de fazer era alimentar-me e crescer. Alimentava-me da terra, da água, do sol. Passei a apreciar os longos dias de Verão da mesma forma que apreciava as grandes tempestades com suas trombas de água. Não havia mais tempo, apenas as estações que mudavam. Podia sentir a dor quando o vento me arrancava folhas, mas podia também dar-me ao luxo de não me importar. Porque tudo o que eu precisava de fazer era crescer. Não podia falar, mas tinha uma vontade própria que me fazia tentar comunicar com o mundo em redor. O vento ajudava-me, os pássaros ajudavam-me, as abelhas ajudavam-me. Vinham alimentar-se das minhas flores e dos meus frutos e assim levavam as minhas mensagens. Para quem? Não sei. Talvez outras árvores. Não havia mais nenhuma à minha volta que me fizesse companhia.

                Descobri a linguagem das plantas, conversando com a relva e com as florzinhas térreas junto ao meu tronco. Podia falar com o musgo e com os líquenes que se alimentavam da minha casca. As nossas conversas eram muito diferentes das que um homem teria com outro homem, ou com uma mulher, ou com qualquer criatura animada. Porque falávamos sobre como poderíamos crescer cada vez mais, ser mais fortes, libertar mais oxigénio, ser mais verdes. Falávamos sobre as nossas chuvadas preferidas e recordávamos os mais belos dias de sol, que tinham sempre brisas agradáveis. Falávamos daquelas vezes em que uma abelha se alimentou das nossas flores.

                Sendo uma árvore, nunca havia momentos tristes ou menos bons. Todos os momentos eram iguais, porque me alimentava do que me rodeava e tudo era agradável. Comecei a esquecer do que tinha sido a minha vida enquanto homem. E quanto menos me recordava do passado e de todo o sofrimento, mais as minhas raízes se expandiam e eu crescia, obedecendo ao desígnio oferecido a todas as plantas.

                Era feliz. Não há nenhuma árvore que não seja feliz.

                Neste novo corpo, também não conseguia perceber o tempo da mesma forma que os homens. Os dias, os meses, os anos, não era necessário conta-los. Sabia que a estação ia mudar pelas ligeiras diferenças na humidade, na temperatura, na luz. Como eu me havia tornado numa árvore de folha permanente, não havia muitas diferenças para mim entre o Inverno e a Primavera. Pássaros traziam mensagens de outras árvores, bem longe, cujas folhas caíam todas quando a temperatura descia. Eu calculava que fosse doloroso, mas compreendia também que para uma árvore todas essas coisas são apenas uma transformação e o sinal de que estamos a fazer tudo bem, para crescer, para não murchar, para não morrer.

                Por isso, não sei quanto tempo passou desde que eu havia sido enterrado vivo e o momento em que voltei a ver pessoas. Uma tarde, senti algo rasgando a minha casca, uma dor aguda que me recordou a vez em que havia sido consumido pelas formigas. Procurei saber o que se tinha passado. Era um casal de pessoas, um rapaz e uma rapariga, humanos, que escreviam as suas iniciais no meu tronco. Apesar da dor, senti-me bem. Afinal, eles tinham-me escolhido para simbolizarem o seu amor. Eu já não recordava bem o que era o amor, mas sabia que era uma coisa boa.

                No entanto, há tanto tempo que não via pessoas que quis saber como eram. Portanto, procurei vê-las. As árvores não têm olhos, mas é como se um desses órgãos existisse em cada ramo, em cada folha, em cada broto. Podemos ver tudo o que nos rodeia, apenas não nos interessa. Naquele dia, interessava-me ver as pessoas, portanto deixei cair uma das minhas folhas mais velhas à sua frente. E quando a folha passou, vi as suas caras. Recordações assolaram-me e fiquei espantado. A rapariga tinha os olhos do homem que me havia enterrado vivo. E o nariz da sua mulher. Aquela que havia sido minha amiga. Mas ela era mais velha do que eles algum dia haviam sido. Quanto tempo tinha passado? Dez anos? Cem? Duzentos? Aquela era, provavelmente, a descendente do homem que me tinha feito tanto mal.

                Por momentos pensei que finalmente poderia concretizar a minha vingança. Como me poderia vingar, enquanto árvore? Deixar cair um dos meus pesados ramos em cima da cabeça destes jovens, para que o seu sangue alimentasse as papoilas que cresciam debaixo da minha sombra? Mas veio uma brisa que trouxe pólens variados, de terras longínquas, e esqueci-me de tudo, mais uma vez. Afinal, de que serviria tirar a vida a uma pessoa que nada me tinha feito, sem ser um rasgão na minha casca? Tal como eu estava vivo, tal como eu tinha a bênção de ainda poder respirar e crescer, devia deixá-los respirar e crescer, para que um dia voltassem para debaixo da minha sombra e fossem, mais uma vez, felizes.

                Eles foram-se e os tempos continuaram a movimentar-se, sem que eu desse por eles. À minha volta fizeram construções. Colocaram bancos e brinquedos para as crianças. Escorregas, baloiços, essas coisas. Puseram uma vedação delimitando o espaço à minha volta, destruindo alguma da relva no processo. Mais tarde, apareceu uma criança muito pequena com os olhos do homem que me tinha enterrado vivo. Filho daquela rapariga que tinha escrito na minha casca?

                Nada mais interessava. Nada mais interessa. Tenho de me esquecer do que foi ser homem. Porque agora sou uma planta. Deixará de haver passado, tal como não há mais presente e nunca houve futuro. Farei como todas as outras plantas e crescerei, aproveitando o sol e a água, a terra e as abelhas.

                Eu sou uma árvore num jardim. A árvore que está no teu jardim. Estou sempre parada, é verdade. Mas sou feliz assim.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Princesa do Reino de Saskia

One of Alexandra Levasseur's Tormented Women
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Princesa do Reino de Saskia
 

                Não me lembro de ser criança. Procuro nos meandros da minha memória, buscando alguma recordação entre as circunvalações do meu cérebro, mas as minhas lembranças são sempre as mesmas. As festas, os bailes, a minha irmã. As festas, os bailes, mais uma vez a minha irmã. Por vezes, os meus pais. Mas eles não são mesmo os meus pais. Ela não é mesmo a minha irmã mais velha. Mas não me lembro de nada antes disso. Alguma coisa impede a minha memória. Quem seria a minha verdadeira família?

                Sei que durante muito tempo, pensava realmente que o rei e a rainha eram os meus pais. Pensava realmente que eu era uma princesa. A princesa mais nova, nunca uma potencial candidata ao trono enquanto a minha irmã existisse, mas ainda assim uma princesa. A bela e platinada princesa do Reino de Saskia. A irmãzinha da encantadora pretendente do Reino de Saskia. Mas um dia, isso recordo, a minha criada de quarto contou-me que não. Na verdade eu tinha sido adoptada a uma família pobre, camponeses?, comerciantes arruinados?, mendigos?, por um capricho da verdadeira princesa. Desde muito pequena que ela é assim: tudo o que pede lho é dado. E quando ela pediu uma irmã, deram-lhe uma. Escolheram a criança mais loira do reino, para parecer que fazia realmente parte da família. E educaram-na como princesa, para parecer que era mesmo uma. Mas, no fundo, não passava de uma pobre camponesa, arruinada ou mendiga, tomada sob a áurea asa da caridosa família soberana, sob a tutela de uma irmã ideal, aquela que nunca poderia ter tido se se mantivesse na sua origem.

                Mas por vezes penso que seria melhor nunca ter saído de lá. Talvez aí recordasse o que foi ser criança.

                A vida no palácio do Reino de Saskia é um suceder de dias que se repetem, com poucas variações entre eles. Todos os dias devo brincar com a minha irmã mais velha. Já não temos idade para brincar, então o que faço é assistir às suas provas de vestidos. Experimenta dezenas, todos os dias, de todas as cores que a retina humana consegue detectar. Os que gosta serão usados, todos, nos bailes do fim-de-semana. Os que não gosta são queimados, numa grande fogueira no pátio. Gosto de ver a fogueira. Sento-me à janela e vejo o fumo a subir, imaginando que sou eu própria nas chamas, que eu me transformei no fumo e que depois serei uma nuvem. Leve, branca, felpuda, uma nuvem que depois se vai transformar em chuva. Uma nuvem livre, como todas as nuvens. Mas a minha mente foi talhada com o cinzel do dever e eu sei que enquanto a minha irmã mais velha for viva, não poderei deixar de brincar com ela aos vestidos e aos bailes.

                Todos os fins-de-semana temos bailes. Ou festas. Sexta, Sábado, Domingo, entre as dezanove horas e as sete horas do dia seguinte. Sou obrigada a ficar todas essas horas no meio das pessoas que, desinteressadas, fazem passos de dança para alegrar a verdadeira princesa. Muitas pessoas já me disseram em segredo, muitas pessoas contam-me segredos quando a minha irmã está distraída. Ninguém gosta de vir às festas, nem aos bailes, porque são monótonos e aborrecidos. A minha irmã dança com todos os homens presentes e a mais ninguém é permitido dançar. Os meus pais, o rei e a rainha, observam tudo dos seus tronos elevados, bebendo um sumo de uva semelhante a sangue. Sorriem, pois a sua menina está feliz. Mas para todos os outros é um sacrifício. Quem recebe um convite tem de vir. Todos os homens que recebem o convite têm de dançar com a princesa do Reino de Saskia. Mas, segundo dizem, ela dança muito mal e pisa os pés de toda a gente.

                Posso dizer que nunca me passou pela cabeça dançar com alguém. Mas um dia, um novo convidado apareceu e esse, sem saber das regras, convidou-me para dançar. A minha irmã mais velha apareceu por trás dele e gelou-me os movimentos com o seu olhar marítimo. Agarrou-o pelos ombros e começou a dançar com ele, explicando-lhe resumidamente as regras daqueles bailes. Eu fiquei a ver, mas não me esqueci do homem. Parecia ser uma pessoa simples e muito diferente de nós. Os seus cabelos eram negros, quase azuis, os seus olhos eram negros, quase castanhos, a sua pele era branca, quase negra de tanta palidez por cima das veias. Enquanto dançava com a princesa do Reino de Saskia olhava para mim, uma e outra vez. Não, não me poderia esquecer dele. Mas não era competência de uma irmã mais nova fitar o aspecto de um homem. Não. Não era competência dela tentar ver a alma de um homem. Mas sinto que nessa altura ele viu a minha, saindo pelo topo da minha cabeça.

                Uns dias depois, os meus pais chamaram-me à sala do trono. Sentados nos seus assentos, rebuscados entre os detalhes da madeira, disseram-me que eu me ia casar. Como?, perguntei eu. A minha irmã mais velha, depois de falar com o homem da pele pálida, decidiu que eu me ia casar. Ela queria ver uma grande festa de casamento. Por isso, no próximo fim-de-semana, as três noites iam ser em minha honra e eu seria autorizada a dançar. O meu coração parou por um momento, mas logo voltou a bater. Quem seria aquele homem misterioso? Será que eu poderia gostar dele? Eu não sabia gostar de nada, a única coisa que apreciava era o fumo da fogueira. Tinha medo, mas no meio do receio podia ver um pirilampo que me guiava até à liberdade que tanto ansiava. Talvez fosse essa a solução.

                Esperei pelo baile seguinte sem me conseguir ter quieta, nem na cama, nem nas cadeiras, nem à hora do jantar. A minha irmã mais velha impedia-me de comer tudo aquilo que queria, dizendo que eu tinha de estar magra para os vestidos me servirem. Ela escolheu-os, todos vestidos verdes que ela não queria mas que tinha salvo da fogueira para me dar. Com este gesto ela pensava ser a mais caridosa das princesas, enquanto que eu seria apenas uma mísera aproveitadora da sua boa vontade. Não pensei muito nisso. Tudo o que queria era experimentar dançar com aquele homem, o homem da pele pálida.

                Quando chegou o dia, descobri que ele se iria sentar ao meu lado no jantar. Assim poderia falar com ele antes da dança! Ele estava ao meu lado direito, eu ao lado direito da rainha, que estava do lado direito do rei, do lado direito da mais velha das princesas do Reino de Saskia, sentada no centro da mesa, presidindo as hostilidades como sempre. Todos estavam distraídos quando o homem me começou a explicar, muito baixinho, ao ouvido, a verdadeira razão pela qual tinha vindo.

                Ele na verdade fazia-se passar por nobre estrangeiro, quando a realidade era que ele fazia parte de uma célula revolucionária que procurava derrubar a família real do Reino de Saskia. Tudo se iria passar nessa noite, mas ele iria salvar-me, pois todos sabiam que eu não era uma verdadeira princesa. Poderia juntar-me à sua revolução e ajudar a criar um novo governo, um governo sem desperdícios, sem festas, sem raparigas mimadas que tinham tudo o que queriam, até mesmo uma irmã. Depois de me contar isto, os seus lábios finos contorceram-se num sorriso incompleto. Eu podia ver a minha cara reflectida nos seus olhos. A minha cara irradiava uma espécie de esperança, um sentimento completamente novo que eu nunca tinha experimentado. O sentimento de uma potencial liberdade, a perspectiva de me transformar em fumo. Sorri também. Tudo ia correr bem.

                Chegou a hora da dança. O homem pálido perfilou-se ao meu lado; a minha irmã e o pai do outro lado; a rainha mais atrás, no centro. Começámos a dançar os passos do minuete encantatório que simbolizava o início das festas. Eu e o homem, a minha irmã e o pai e a rainha sozinha, fingindo que tinha um par, balançando o seu corpo gorduroso todo enfeitado de brilhantes coloridos. Eu sentia-me envolvida num abraço quente, num amor profundo, como se finalmente tivesse reencontrado a minha família perdida há tanto, tanto tempo… Mas à minha volta sentia os frios olhos da minha irmã, sempre pairando sobre mim como um abutre incorpóreo. No final da dança, ela puxou-me pela mão para trás de uma cortina. Sorrindo, disse

                Já não te vais casar. Não quero.

                Depois levou-me até ao meu quarto e trancou-me lá dentro. Mas eu não me sentia abalada de nenhuma maneira. Porque sabia o que o homem pálido me tinha dito: devia mudar de roupa e esperar no meu quarto com a janela aberta. Ele viria buscar-me. Troquei o vestido por umas calças de ganga e uma camisa, prendi o meu cabelo num rabo-de-cavalo. Cheguei a considerar cortá-lo, mas não tinha uma tesoura no meu quarto. Os objectos cortantes eram sempre levados pelas criadas quando chegava a noite. Só nessa altura percebi que era para me impedirem de alterar o meu corpo de alguma forma, quer com marcas quer com a própria morte. Eles sabiam que eu nunca poderia ser feliz ali. Mas provavelmente sabiam que ia chegar o dia em que eu ia ser nuvem.

                Esse dia chegou. O homem pálido encostou um escadote de metal à janela e disse-me para descer. Depois entrámos no seu jipe, onde outros companheiros o esperavam, e fomos até ao acampamento dos revolucionários. Lá ardiam fogueiras, lá havia famílias vestidas com calças, com cabelos cortados, com animais ao colo. Lá as pessoas tinham olhos verdes, castanhos e negros, como se fossem as nossas criadas. Mas não eram criadas, porque eu agora era parte deles. Sentaram-me junto a uma fogueira e começaram a cantar-me canções sobre a sua luta. Uma delas era a minha história. A menina que tinha sido raptada para ser o bicho de estimação da princesa. Tudo aquilo me divertia. Cheguei mesmo a dançar, abraçada ao homem pálido.

                Subitamente chegou um grande camião com uma jaula na parte de trás. Lá dentro vinha a família real do Reino de Saskia, com os seus fatos de baile esfarrapados, chorando com os olhos vidrados. Para eles, qualquer coisa fora da sua realidade era como viajar para um planeta cheio de monstros carnívoros. Os revolucionários ordenaram-lhes que saíssem do camião e perguntaram-me o que fazer com eles. Disse-lhes para os sentarem ao meu lado. Olhavam para mim como se nada fizesse sentido, como se eu tivesse deixado de ser a mesma pessoa. Talvez tivesse…

                Um deles disse “Trouxemos a comida da festa!” e começaram a dispô-la à nossa frente, ainda nos pratos de porcelana oriental do palácio. Eu estava cheia de fome, portanto peguei nos talheres de prata e comecei a comer de tudo um pouco. A minha irmã mais velha e os outros estavam amarrados e olhavam para mim com um ar incrédulo. Finalmente, cheguei à sobremesa. Era um pudim, um pudim flan enorme. Tirei um pedaço com o garfo e a minha irmã começou a gritar

                Esse é o meu pudim preferido! Não o podes comer! Dá-me! Dá-me!

                Os seus gritos pareciam vir do fundo do seu estômago, cheios de ácido, envolvidos em lágrimas de raiva e sal. Debatia-se, cara toda vermelha, para se libertar das cordas que a amarravam. Rebolou-se sobre si própria, estragando o vestido, sem conseguir respirar por causa do ranho que lhe escorria das narinas, gritando que queria o pudim, que o queria, que não me deixava casar se eu não lho desse.

                Comi uma dentada e atirei o resto para a fogueira à minha frente. Vi o fumo cinzento a desfazer-se na direcção da lua. Ia transformar-se numa nuvem. Eu estava feliz. Pela primeira vez na vida, espreguicei-me sem pedir licença e sorri para o céu.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O Meu Parasita

Illustration by Mrzyk & Moriceau










O Meu Parasita



                Oh, que belo campo de férias! Estende-se a relva em espaços divididos por delicadas estatuetas, mármore, pedra, pedras com formas humanas, pedras com formas geométricas, pedras com formas de pedra. Corro pelas escadas abaixo, ténis ligeiros, ligeiramente rotos, cabelos leves levantando-se com o cheiro das flores. Há muitos recantos escondidos e os outros adolescentes, vestidos com seus calções de lycra azuis e suas t-shirts soltas, reúnem-se neles para conversar e para se beijarem. Encontro vários grupos, mas continuo o meu caminho, afagando uma estátua, cumprimentando uma ave, não são estes os meus recantos, não são para mim estes beijos.

                Esses esperam-me noutro sítio.

                Estaco. Encontro um grupo de jovens muito loiros e bronzeados, suor encharcando-lhes os sovacos, um aroma selvagem e estranhamente limpo. “O que fazes aqui”, perguntam-me, todos cheios de sorrisos, dentes muito alinhados e brilhantes, pessoas tão perfeitas. “Estou à procura dele”. Eles soltam gargalhadas, como se eu tivesse sido apanhada no centro de alguma fofoca ardente. Sugerem ir até à piscina, pois algo especial se está a passar lá.

                É uma piscina rectangular, não muito grande, ladeada por mosaicos decorados, tudo em tons de branco e pedra, perfeitamente encaixados numa pequena depressão do terreno. À sua volta, tudo é verde de relva aparada e folhas saudáveis. Aqui não há flores. Todas as plantas são escuras e a água clorada da piscina é tão azul… Mas reparo que algo de estranho se passa. Os jovens sentam-se daquele local privilegiado para ver os acontecimentos, mas eu aproximo-me. Dentro da piscina está uma enorme manta, uma raia crescida, que ocupa quase todo o espaço de uma ponta à outra, transversalmente. Por baixo dela, está um hipopótamo, menor mas com enormes presas e a mucosa rosada, cheia de sangue. Lutam um contra o outro, a manta abanando as suas asas cartilaginosas, o hipopótamos rugindo e abrindo a sua boca flácida para morder o outro animal. E tudo parece estar a correr bem para o hipopótamo. Não acho mal. Gosto de mantas. Gosto de raias. Gosto de uma boa posta grelhada. Posta, posta, hoje vamos jantar raia.

                A manta parece vencida e flutua na água, como um grande sinal de somar. O hipopótamo sai da piscina e sacode-se da água. Ver esta luta foi como uma purificação. A água salpicando, molhando tudo à sua volta, o sangue escorrendo dos arranhões dos animais, os rugidos, o suor, o suor… Mas não está tudo bem. A manta, que parecia morta, ergue-se com as suas barbatanas laterais, um voo impossível, um voo que a afasta da sua condição aquática e a coloca numa outra categoria filogenética. A dos monstros. Com uma das barbatanas, envolve o hipopótamo e atira-o para dentro de água. É a sua morte. Não vai haver posta, não vai haver posta, o sangue do paquiderme é tudo o que resta na piscina e o meu umbigo começa a doer, dói tanto, algo nasce dentro dele e expele o seu botão para o exterior, não, o meu umbigo!

                “Dói-me o umbigo!”

                Corro de volta para junto dos jovens. Uma rapariga com os cabelos muito compridos e saudáveis levanta a minha t-shirt.

                “Estiveste junto da água. Agora tens o parasita.”

                O parasita? O que é o parasita? Ninguém me sabe explicar e dançam em roda, à minha volta, sorrisos inocentes, vais morrer, vais morrer, vou morrer, ninguém me salva? Porque é que ninguém me salva? Quero sair dali, correr para longe, mas o círculo aperta-se à minha volta. No meio deles está o monitor do campo de férias, um homem muito alto e de cabelos negros, com um aspecto detestável e um sorriso encantador.

                “Eu tiro-te o parasita.”

                Vamos para a casa da piscina, onde estão guardadas todas as bóias e outros flutuadores. Ele deita-me em cima de um colchão de borracha, cheio com ar, um colchão vermelho com um desenho de um dálmata. Levanta-me a t-shirt e posso ver a minha barriga, pálida, gordurosa, rotunda. O umbigo cresceu, está todo cá fora, e num dos lados sai a cabeça de um pequeno verme pegajoso. O monitor pega numa espingarda e dá uma gargalhada.

                “Levanta o braço!”        

                Eu levanto o braço. Ele baixa a minha manga e aponta a espingarda à minha axila. Fecho os olhos com força e oiço o tiro. Estou livre do parasita. Voou para longe com a pressão da bala, que atravessou todos os meus vasos sanguíneos desde o plexo braquial até ao umbigo. Mas quando abro os olhos, descubro que ainda estou dominada pelo bicho. Porque agora é Inverno e estou na misteriosa estação dos ferries que nunca vão para o outro lado do rio. Estes ferries navegam, mas voltam sempre para o seu ponto de partida.

                As minhas roupas mudaram, certamente obra do parasita. Estou com o sobretudo comprido, impermeável, as botas quentes. Uma chuva miudinha não me pode atingir, porque estou bem agasalhada. Entro no ferry e vou até ao bar. Subitamente, vejo-o. Lá está ele, era ele quem eu procurava para beijar, era ele quem eu procurava no campo de férias! Mas o que faz ele aqui? Só eu posso apanhar o ferry, pois o ferry vai para minha casa. Falamos um pouco e ele segue-me, estamos em casa. Começa a rir-se quando acendo o ecrã do computador. Vejo as nossas fotografias. Ele foi apagado. Não está em nenhuma. E o riso dele é histérico, nascendo de dentro do abdómen, saindo pelo umbigo. Choro, grito, foi tudo mentira?

“Foi tudo mentira!”


                Foi só um jogo? Quem é esta mulher? Quem é esta mulher feia ao teu lado na fotografia? Sou eu? Esta não sou eu!

                “Sempre foi um jogo.”

                Encostado contra o vão da porta, o riso continua a sair-lhe do umbigo. Está alto, está demasiado alto. Os seus olhos são largos e brilham, verdes como jóias, injectados de sangue. Uma serpente, uma ratazana, ele não é ele, ele é o parasita e consome-me!

                Corro para o armário da roupa e tiro de lá uma lata de feijão preto. Abro a lata e, às mãos cheias, como todo o seu conteúdo. Mas não é o suficiente. Onde estão os meus comprimidos? Preciso deles todos, preciso de todos ao mesmo tempo. Coloco a mão no armário e tiro de lá uma garrafa de vodka. Começo a bebê-la, não sabe a nada, é vodka do supermercado, tudo o que eu quero é bebê-la toda e vomitar. Vou vomitar o feijão, vou vomitar o parasita, vou vomitar tudo. Vou vomitar a alma. Talvez se beber a garrafa toda consiga vomitar.

                Talvez se beber a garrafa toda consiga acordar.