sexta-feira, 18 de março de 2016

A Princesa do Reino de Saskia

One of Alexandra Levasseur's Tormented Women
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A Princesa do Reino de Saskia
 

                Não me lembro de ser criança. Procuro nos meandros da minha memória, buscando alguma recordação entre as circunvalações do meu cérebro, mas as minhas lembranças são sempre as mesmas. As festas, os bailes, a minha irmã. As festas, os bailes, mais uma vez a minha irmã. Por vezes, os meus pais. Mas eles não são mesmo os meus pais. Ela não é mesmo a minha irmã mais velha. Mas não me lembro de nada antes disso. Alguma coisa impede a minha memória. Quem seria a minha verdadeira família?

                Sei que durante muito tempo, pensava realmente que o rei e a rainha eram os meus pais. Pensava realmente que eu era uma princesa. A princesa mais nova, nunca uma potencial candidata ao trono enquanto a minha irmã existisse, mas ainda assim uma princesa. A bela e platinada princesa do Reino de Saskia. A irmãzinha da encantadora pretendente do Reino de Saskia. Mas um dia, isso recordo, a minha criada de quarto contou-me que não. Na verdade eu tinha sido adoptada a uma família pobre, camponeses?, comerciantes arruinados?, mendigos?, por um capricho da verdadeira princesa. Desde muito pequena que ela é assim: tudo o que pede lho é dado. E quando ela pediu uma irmã, deram-lhe uma. Escolheram a criança mais loira do reino, para parecer que fazia realmente parte da família. E educaram-na como princesa, para parecer que era mesmo uma. Mas, no fundo, não passava de uma pobre camponesa, arruinada ou mendiga, tomada sob a áurea asa da caridosa família soberana, sob a tutela de uma irmã ideal, aquela que nunca poderia ter tido se se mantivesse na sua origem.

                Mas por vezes penso que seria melhor nunca ter saído de lá. Talvez aí recordasse o que foi ser criança.

                A vida no palácio do Reino de Saskia é um suceder de dias que se repetem, com poucas variações entre eles. Todos os dias devo brincar com a minha irmã mais velha. Já não temos idade para brincar, então o que faço é assistir às suas provas de vestidos. Experimenta dezenas, todos os dias, de todas as cores que a retina humana consegue detectar. Os que gosta serão usados, todos, nos bailes do fim-de-semana. Os que não gosta são queimados, numa grande fogueira no pátio. Gosto de ver a fogueira. Sento-me à janela e vejo o fumo a subir, imaginando que sou eu própria nas chamas, que eu me transformei no fumo e que depois serei uma nuvem. Leve, branca, felpuda, uma nuvem que depois se vai transformar em chuva. Uma nuvem livre, como todas as nuvens. Mas a minha mente foi talhada com o cinzel do dever e eu sei que enquanto a minha irmã mais velha for viva, não poderei deixar de brincar com ela aos vestidos e aos bailes.

                Todos os fins-de-semana temos bailes. Ou festas. Sexta, Sábado, Domingo, entre as dezanove horas e as sete horas do dia seguinte. Sou obrigada a ficar todas essas horas no meio das pessoas que, desinteressadas, fazem passos de dança para alegrar a verdadeira princesa. Muitas pessoas já me disseram em segredo, muitas pessoas contam-me segredos quando a minha irmã está distraída. Ninguém gosta de vir às festas, nem aos bailes, porque são monótonos e aborrecidos. A minha irmã dança com todos os homens presentes e a mais ninguém é permitido dançar. Os meus pais, o rei e a rainha, observam tudo dos seus tronos elevados, bebendo um sumo de uva semelhante a sangue. Sorriem, pois a sua menina está feliz. Mas para todos os outros é um sacrifício. Quem recebe um convite tem de vir. Todos os homens que recebem o convite têm de dançar com a princesa do Reino de Saskia. Mas, segundo dizem, ela dança muito mal e pisa os pés de toda a gente.

                Posso dizer que nunca me passou pela cabeça dançar com alguém. Mas um dia, um novo convidado apareceu e esse, sem saber das regras, convidou-me para dançar. A minha irmã mais velha apareceu por trás dele e gelou-me os movimentos com o seu olhar marítimo. Agarrou-o pelos ombros e começou a dançar com ele, explicando-lhe resumidamente as regras daqueles bailes. Eu fiquei a ver, mas não me esqueci do homem. Parecia ser uma pessoa simples e muito diferente de nós. Os seus cabelos eram negros, quase azuis, os seus olhos eram negros, quase castanhos, a sua pele era branca, quase negra de tanta palidez por cima das veias. Enquanto dançava com a princesa do Reino de Saskia olhava para mim, uma e outra vez. Não, não me poderia esquecer dele. Mas não era competência de uma irmã mais nova fitar o aspecto de um homem. Não. Não era competência dela tentar ver a alma de um homem. Mas sinto que nessa altura ele viu a minha, saindo pelo topo da minha cabeça.

                Uns dias depois, os meus pais chamaram-me à sala do trono. Sentados nos seus assentos, rebuscados entre os detalhes da madeira, disseram-me que eu me ia casar. Como?, perguntei eu. A minha irmã mais velha, depois de falar com o homem da pele pálida, decidiu que eu me ia casar. Ela queria ver uma grande festa de casamento. Por isso, no próximo fim-de-semana, as três noites iam ser em minha honra e eu seria autorizada a dançar. O meu coração parou por um momento, mas logo voltou a bater. Quem seria aquele homem misterioso? Será que eu poderia gostar dele? Eu não sabia gostar de nada, a única coisa que apreciava era o fumo da fogueira. Tinha medo, mas no meio do receio podia ver um pirilampo que me guiava até à liberdade que tanto ansiava. Talvez fosse essa a solução.

                Esperei pelo baile seguinte sem me conseguir ter quieta, nem na cama, nem nas cadeiras, nem à hora do jantar. A minha irmã mais velha impedia-me de comer tudo aquilo que queria, dizendo que eu tinha de estar magra para os vestidos me servirem. Ela escolheu-os, todos vestidos verdes que ela não queria mas que tinha salvo da fogueira para me dar. Com este gesto ela pensava ser a mais caridosa das princesas, enquanto que eu seria apenas uma mísera aproveitadora da sua boa vontade. Não pensei muito nisso. Tudo o que queria era experimentar dançar com aquele homem, o homem da pele pálida.

                Quando chegou o dia, descobri que ele se iria sentar ao meu lado no jantar. Assim poderia falar com ele antes da dança! Ele estava ao meu lado direito, eu ao lado direito da rainha, que estava do lado direito do rei, do lado direito da mais velha das princesas do Reino de Saskia, sentada no centro da mesa, presidindo as hostilidades como sempre. Todos estavam distraídos quando o homem me começou a explicar, muito baixinho, ao ouvido, a verdadeira razão pela qual tinha vindo.

                Ele na verdade fazia-se passar por nobre estrangeiro, quando a realidade era que ele fazia parte de uma célula revolucionária que procurava derrubar a família real do Reino de Saskia. Tudo se iria passar nessa noite, mas ele iria salvar-me, pois todos sabiam que eu não era uma verdadeira princesa. Poderia juntar-me à sua revolução e ajudar a criar um novo governo, um governo sem desperdícios, sem festas, sem raparigas mimadas que tinham tudo o que queriam, até mesmo uma irmã. Depois de me contar isto, os seus lábios finos contorceram-se num sorriso incompleto. Eu podia ver a minha cara reflectida nos seus olhos. A minha cara irradiava uma espécie de esperança, um sentimento completamente novo que eu nunca tinha experimentado. O sentimento de uma potencial liberdade, a perspectiva de me transformar em fumo. Sorri também. Tudo ia correr bem.

                Chegou a hora da dança. O homem pálido perfilou-se ao meu lado; a minha irmã e o pai do outro lado; a rainha mais atrás, no centro. Começámos a dançar os passos do minuete encantatório que simbolizava o início das festas. Eu e o homem, a minha irmã e o pai e a rainha sozinha, fingindo que tinha um par, balançando o seu corpo gorduroso todo enfeitado de brilhantes coloridos. Eu sentia-me envolvida num abraço quente, num amor profundo, como se finalmente tivesse reencontrado a minha família perdida há tanto, tanto tempo… Mas à minha volta sentia os frios olhos da minha irmã, sempre pairando sobre mim como um abutre incorpóreo. No final da dança, ela puxou-me pela mão para trás de uma cortina. Sorrindo, disse

                Já não te vais casar. Não quero.

                Depois levou-me até ao meu quarto e trancou-me lá dentro. Mas eu não me sentia abalada de nenhuma maneira. Porque sabia o que o homem pálido me tinha dito: devia mudar de roupa e esperar no meu quarto com a janela aberta. Ele viria buscar-me. Troquei o vestido por umas calças de ganga e uma camisa, prendi o meu cabelo num rabo-de-cavalo. Cheguei a considerar cortá-lo, mas não tinha uma tesoura no meu quarto. Os objectos cortantes eram sempre levados pelas criadas quando chegava a noite. Só nessa altura percebi que era para me impedirem de alterar o meu corpo de alguma forma, quer com marcas quer com a própria morte. Eles sabiam que eu nunca poderia ser feliz ali. Mas provavelmente sabiam que ia chegar o dia em que eu ia ser nuvem.

                Esse dia chegou. O homem pálido encostou um escadote de metal à janela e disse-me para descer. Depois entrámos no seu jipe, onde outros companheiros o esperavam, e fomos até ao acampamento dos revolucionários. Lá ardiam fogueiras, lá havia famílias vestidas com calças, com cabelos cortados, com animais ao colo. Lá as pessoas tinham olhos verdes, castanhos e negros, como se fossem as nossas criadas. Mas não eram criadas, porque eu agora era parte deles. Sentaram-me junto a uma fogueira e começaram a cantar-me canções sobre a sua luta. Uma delas era a minha história. A menina que tinha sido raptada para ser o bicho de estimação da princesa. Tudo aquilo me divertia. Cheguei mesmo a dançar, abraçada ao homem pálido.

                Subitamente chegou um grande camião com uma jaula na parte de trás. Lá dentro vinha a família real do Reino de Saskia, com os seus fatos de baile esfarrapados, chorando com os olhos vidrados. Para eles, qualquer coisa fora da sua realidade era como viajar para um planeta cheio de monstros carnívoros. Os revolucionários ordenaram-lhes que saíssem do camião e perguntaram-me o que fazer com eles. Disse-lhes para os sentarem ao meu lado. Olhavam para mim como se nada fizesse sentido, como se eu tivesse deixado de ser a mesma pessoa. Talvez tivesse…

                Um deles disse “Trouxemos a comida da festa!” e começaram a dispô-la à nossa frente, ainda nos pratos de porcelana oriental do palácio. Eu estava cheia de fome, portanto peguei nos talheres de prata e comecei a comer de tudo um pouco. A minha irmã mais velha e os outros estavam amarrados e olhavam para mim com um ar incrédulo. Finalmente, cheguei à sobremesa. Era um pudim, um pudim flan enorme. Tirei um pedaço com o garfo e a minha irmã começou a gritar

                Esse é o meu pudim preferido! Não o podes comer! Dá-me! Dá-me!

                Os seus gritos pareciam vir do fundo do seu estômago, cheios de ácido, envolvidos em lágrimas de raiva e sal. Debatia-se, cara toda vermelha, para se libertar das cordas que a amarravam. Rebolou-se sobre si própria, estragando o vestido, sem conseguir respirar por causa do ranho que lhe escorria das narinas, gritando que queria o pudim, que o queria, que não me deixava casar se eu não lho desse.

                Comi uma dentada e atirei o resto para a fogueira à minha frente. Vi o fumo cinzento a desfazer-se na direcção da lua. Ia transformar-se numa nuvem. Eu estava feliz. Pela primeira vez na vida, espreguicei-me sem pedir licença e sorri para o céu.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O Meu Parasita

Illustration by Mrzyk & Moriceau










O Meu Parasita



                Oh, que belo campo de férias! Estende-se a relva em espaços divididos por delicadas estatuetas, mármore, pedra, pedras com formas humanas, pedras com formas geométricas, pedras com formas de pedra. Corro pelas escadas abaixo, ténis ligeiros, ligeiramente rotos, cabelos leves levantando-se com o cheiro das flores. Há muitos recantos escondidos e os outros adolescentes, vestidos com seus calções de lycra azuis e suas t-shirts soltas, reúnem-se neles para conversar e para se beijarem. Encontro vários grupos, mas continuo o meu caminho, afagando uma estátua, cumprimentando uma ave, não são estes os meus recantos, não são para mim estes beijos.

                Esses esperam-me noutro sítio.

                Estaco. Encontro um grupo de jovens muito loiros e bronzeados, suor encharcando-lhes os sovacos, um aroma selvagem e estranhamente limpo. “O que fazes aqui”, perguntam-me, todos cheios de sorrisos, dentes muito alinhados e brilhantes, pessoas tão perfeitas. “Estou à procura dele”. Eles soltam gargalhadas, como se eu tivesse sido apanhada no centro de alguma fofoca ardente. Sugerem ir até à piscina, pois algo especial se está a passar lá.

                É uma piscina rectangular, não muito grande, ladeada por mosaicos decorados, tudo em tons de branco e pedra, perfeitamente encaixados numa pequena depressão do terreno. À sua volta, tudo é verde de relva aparada e folhas saudáveis. Aqui não há flores. Todas as plantas são escuras e a água clorada da piscina é tão azul… Mas reparo que algo de estranho se passa. Os jovens sentam-se daquele local privilegiado para ver os acontecimentos, mas eu aproximo-me. Dentro da piscina está uma enorme manta, uma raia crescida, que ocupa quase todo o espaço de uma ponta à outra, transversalmente. Por baixo dela, está um hipopótamo, menor mas com enormes presas e a mucosa rosada, cheia de sangue. Lutam um contra o outro, a manta abanando as suas asas cartilaginosas, o hipopótamos rugindo e abrindo a sua boca flácida para morder o outro animal. E tudo parece estar a correr bem para o hipopótamo. Não acho mal. Gosto de mantas. Gosto de raias. Gosto de uma boa posta grelhada. Posta, posta, hoje vamos jantar raia.

                A manta parece vencida e flutua na água, como um grande sinal de somar. O hipopótamo sai da piscina e sacode-se da água. Ver esta luta foi como uma purificação. A água salpicando, molhando tudo à sua volta, o sangue escorrendo dos arranhões dos animais, os rugidos, o suor, o suor… Mas não está tudo bem. A manta, que parecia morta, ergue-se com as suas barbatanas laterais, um voo impossível, um voo que a afasta da sua condição aquática e a coloca numa outra categoria filogenética. A dos monstros. Com uma das barbatanas, envolve o hipopótamo e atira-o para dentro de água. É a sua morte. Não vai haver posta, não vai haver posta, o sangue do paquiderme é tudo o que resta na piscina e o meu umbigo começa a doer, dói tanto, algo nasce dentro dele e expele o seu botão para o exterior, não, o meu umbigo!

                “Dói-me o umbigo!”

                Corro de volta para junto dos jovens. Uma rapariga com os cabelos muito compridos e saudáveis levanta a minha t-shirt.

                “Estiveste junto da água. Agora tens o parasita.”

                O parasita? O que é o parasita? Ninguém me sabe explicar e dançam em roda, à minha volta, sorrisos inocentes, vais morrer, vais morrer, vou morrer, ninguém me salva? Porque é que ninguém me salva? Quero sair dali, correr para longe, mas o círculo aperta-se à minha volta. No meio deles está o monitor do campo de férias, um homem muito alto e de cabelos negros, com um aspecto detestável e um sorriso encantador.

                “Eu tiro-te o parasita.”

                Vamos para a casa da piscina, onde estão guardadas todas as bóias e outros flutuadores. Ele deita-me em cima de um colchão de borracha, cheio com ar, um colchão vermelho com um desenho de um dálmata. Levanta-me a t-shirt e posso ver a minha barriga, pálida, gordurosa, rotunda. O umbigo cresceu, está todo cá fora, e num dos lados sai a cabeça de um pequeno verme pegajoso. O monitor pega numa espingarda e dá uma gargalhada.

                “Levanta o braço!”        

                Eu levanto o braço. Ele baixa a minha manga e aponta a espingarda à minha axila. Fecho os olhos com força e oiço o tiro. Estou livre do parasita. Voou para longe com a pressão da bala, que atravessou todos os meus vasos sanguíneos desde o plexo braquial até ao umbigo. Mas quando abro os olhos, descubro que ainda estou dominada pelo bicho. Porque agora é Inverno e estou na misteriosa estação dos ferries que nunca vão para o outro lado do rio. Estes ferries navegam, mas voltam sempre para o seu ponto de partida.

                As minhas roupas mudaram, certamente obra do parasita. Estou com o sobretudo comprido, impermeável, as botas quentes. Uma chuva miudinha não me pode atingir, porque estou bem agasalhada. Entro no ferry e vou até ao bar. Subitamente, vejo-o. Lá está ele, era ele quem eu procurava para beijar, era ele quem eu procurava no campo de férias! Mas o que faz ele aqui? Só eu posso apanhar o ferry, pois o ferry vai para minha casa. Falamos um pouco e ele segue-me, estamos em casa. Começa a rir-se quando acendo o ecrã do computador. Vejo as nossas fotografias. Ele foi apagado. Não está em nenhuma. E o riso dele é histérico, nascendo de dentro do abdómen, saindo pelo umbigo. Choro, grito, foi tudo mentira?

“Foi tudo mentira!”


                Foi só um jogo? Quem é esta mulher? Quem é esta mulher feia ao teu lado na fotografia? Sou eu? Esta não sou eu!

                “Sempre foi um jogo.”

                Encostado contra o vão da porta, o riso continua a sair-lhe do umbigo. Está alto, está demasiado alto. Os seus olhos são largos e brilham, verdes como jóias, injectados de sangue. Uma serpente, uma ratazana, ele não é ele, ele é o parasita e consome-me!

                Corro para o armário da roupa e tiro de lá uma lata de feijão preto. Abro a lata e, às mãos cheias, como todo o seu conteúdo. Mas não é o suficiente. Onde estão os meus comprimidos? Preciso deles todos, preciso de todos ao mesmo tempo. Coloco a mão no armário e tiro de lá uma garrafa de vodka. Começo a bebê-la, não sabe a nada, é vodka do supermercado, tudo o que eu quero é bebê-la toda e vomitar. Vou vomitar o feijão, vou vomitar o parasita, vou vomitar tudo. Vou vomitar a alma. Talvez se beber a garrafa toda consiga vomitar.

                Talvez se beber a garrafa toda consiga acordar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O Fim do Mundo


Scott Naismith




O Fim do Mundo

                Quanto tempo já passou desde a última vez? Da última vez que aqui estivemos os quatro, desde a última vez que foi o fim? Sim, já se devem ter passado muitos anos. Estive comatosa, um sono profundo em que fingi ser uma pessoa normal, gerações seguidas de gerações a ser uma pessoa normal. Fui a primeira a chegar, a minha cadeira continua exactamente igual. Uma cadeira de plástico verde, com a mesa a condizer ao lado. Este ano esperavam-me algumas litrosas numa caixa cheia de gelo. É sempre preciso um pouco de gasosa para acompanhar as festividades.


                Os outros acabaram por chegar, vindos do portão enferrujado que se abre para nós do lado esquerdo do campo. O campo continua igual, uma grande extensão de erva verdejante que nunca é cortada. Do lado direito, a rede. Uma rede altíssima, que corta as nuvens no céu. Do outro lado? É o precipício. Os outros chegaram e sentaram-se nas suas cadeiras. São tantas vezes a fazer isto que já nem nos cumprimentamos com os dois beijinhos. Só um aceno e chega. Depois começa o fim. Primeiro chegam os nossos amigos desta última vida. Temos de os avaliar e salvar. Desta vez a avaliação é ainda mais simples: grupos de pessoas são enviadas para dentro dos quatro quartos à nossa frente, quartos poliédricos, paralelepípedos sem cor. Só nós podemos ver o interior. Não tem nada. Enfim. Nos quartos, as pessoas têm certo tipo de comportamentos que revelam algo sobre a sua humanidade. Salvamos aqueles que achamos que devem prosseguir, vida após vida, mundo após mundo. Somos os avaliadores do fim. É o fim. O fim do mundo.

                Eu sei bem porque é que me escolheram. Eu estava no primeiro grupo de pessoas, na primeira avaliação. Ainda não havia juízes, como eu e os outros. Sobrámos só nós os quatro e, por isso, ficámos para a posteridade. Já não me lembro bem qual foi o meu teste, o teste original, mas sei que me safei porque me mantive totalmente passiva, sem resposta, encolhida num canto enquanto as outras pessoas se matavam umas às outras. Acho que com os outros três foi a mesma coisa. Vão passando os anos, vão passando os tempos, vivemos e voltamos sempre aqui. Nunca esquecemos o que se passou.

                Os primeiros grupos passam, os nossos amigos. Salvo todos. Vêm os grupos a seguir, elimino todos. Neste fim do mundo o jogo é aborrecido, podemos ver para dentro das caixas e as estações mudam no céu por cima de nós. Tanto está um denso nevoeiro como as folhas da floresta atrás de nós viajam, folhas feitas de vento. Vou bebendo as minhas litrosas e quase que adormeço. Entretanto chegam mais pessoas. Vejo que estas são toda uma turma de adolescentes. Talvez seja interessante.

                Para a caixa que tenho de observar entram cinco raparigas e um rapaz. Atento bem. Eles estão nervosos, quando chega a altura do fim do mundo todos sabem que têm de se destruir uns aos outros ou sobreviver todos juntos. Apenas não estão à espera que seja através deste tipo de jogo mental. Quem inventou estes jogos, quem inventou o fim do mundo? Não sabemos quem é o nosso chefe, não sabemos se é omnipresente ou potente. Ele nunca falou connosco. Ele nunca nos disse se estávamos a fazer bem ou mal. Nunca nos culpou por termos escolhido o Noé, nunca se justificou quando enviou as bolas de fogo nem quando soltou aquela serpente enorme, nem quando mandou o coiote comer toda a gente. Não sabemos quem é, portanto fazemos nós as regras. Tudo depende do jogo, claro. Mas quem decide somos nós, eu e os outros três.

Estas raparigas têm todas cabelos de cores diferentes, são todas gordinhas, são todas feiinhas. O rapaz é alto e tem o rosto cheio de borbulhas e cicatrizes acneicas. Escolha interessante. A caixa fecha-se e apenas eu posso ver o que se passa lá dentro. Recosto-me na minha cadeira de plástico. Para eles, lá dentro, passam-se meses. Para mim não há tempo. O rapaz parece ter uma estratégia. A estratégia dele é ser mais esperto que elas. E a única maneira de ser mais esperto é conquistá-las. Uma a uma, falinhas mansas, elogios à beleza, à estrutura, ao corpo, às mamas. Todas têm cabelos de cores diferentes, mas são todas iguais, não há originais. Ele conquista-as e começa a alimentar-se delas. Percebo o seu plano. Tenciona matá-las a seguir e ser o único dentro da caixa. Só assim poderá ser salvo. A pouco e pouco aproxima-se delas. Não aparentam ter muita personalidade, deixam-se conquistar, deixam-se ser comidas, é tudo muito rápido. Pensam que a única forma de sair da caixa é submeter-se às vontades do macho. Fazem-no, fazem-no repetidamente. E ele beija-as e apalpa-as e fode-as, uma, duas, cinco, de cada vez, de uma só vez, umas em cima das outras, cabelos todos de cores diferentes, pêlos púbicos todos de cores diferentes, será que ele acha mesmo que se vai conseguir safar assim? Será que assim se safa do fim? A caixa está cada vez mais suja.

Já fiz a minha escolha. Uma das paredes da caixa, a que dá para o campo de ervas daninhas, abre-se. Vejo os olhos do rapaz a iluminar-se, um sorriso largo a abrir-se, as borbulhas brilhando. “Consegui! Suas putas, consegui!” Mas eu tenho uma má notícia para ele. Porque deste lado estão os que se salvaram. E eles agarram nas mãos das raparigas, cada unha da sua cor, e levam-nas para perto deles. Elas cospem em cima do rapaz. “Nós deixámos que nos violasses. Nós sabíamos o que ias fazer. Agora, tu vais morrer.”

Na parede do outro lado abre-se uma pequena porta. Do outro lado, uma luz branca ofusca quem olhar para ela. O rapaz começa a chorar, as lágrimas saltando por cima das cabeças das borbulhas, cheias de pus. “Não, não me levem, salvem-me, salvem-me!” Respiro fundo. Estas coisas aborrecem-me. Ordeno a sua saída. Não quero mais vê-lo. Grandes mãos mecânicas agarram-no pelos membros, ele grita e debate-se mas nada as pode parar. Vai para o outro lado, encontrar-se com as pessoas do outro lado. Está lá uma conhecida minha. Uma princesa, Vitória ou Elizabete, já não me lembro bem do nome dela. Está condenada para toda a eternidade a modelar uma raposa de plasticina. A pasta enrola-se nos seus dedos e ela amassa e destrói a raposa, até que tome a forma que deseje. A raposa tem o nariz comprido, mas ela retira-lhe a massa da mandíbula, fica retrognata, coloca a plasticina por cima do focinho e molda-a de forma a ter um grande sorriso. “Mãe, minha mãe!”, reconhece ela, mas logo tem de voltar a amassar a raposa e a procurar outra forma. Mas é sempre uma raposa.

Ainda falta bastante para terminarmos o nosso trabalho aqui. Ainda tenho muitas litrosas e a casa de banho é mesmo aqui ao lado. Vejo as pessoas a chegar do portão, a correrem com medo para a rede e a verem o precipício, a descobrirem que não há saída sem ser jogar o jogo. Afinal, este é o fim. O fim do mundo. O fim deste mundo, pelo menos. É o fim do mundo. Lá na floresta, cigarras cantam.
 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Planeta Cubo

Artistic 4D Cube, Jochi
 
 
 
 
 
 
 
Planeta Cubo
 
Uma dessas noites
Viajei para o Planeta Cubo

É um planeta que se move em quadrados
No espaço
Tem seis lados
Todos iguais
E o mar cai das suas arestas

Vivem muitas pessoas
E muitas coisas
No Planeta Cubo

No mar
Polvos quadrados resolvem
Cubos mágicos
É o seu jogo preferido

E na terra
Pessoas quadradas
Com mentes quadradas
Sentadas em cadeiras quadradas
Com rabos quadrados
Soltam PUNS
Puns cubistas

Sonham as pessoas quadradas
Com sonhos quadrados sobre
Triângulos
Círculos
Pentágonos
Mas no céu todas as nuvens são quadradas
E as gotas da chuva são quadradas também