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domingo, 1 de abril de 2018

Desafio de Escrita - Mercedes deu-me um pontapé

Mercedes, Garcia Bravo










Desafio de Escrita #7
Tema: Uma Pessoa do Passado
Data: 31 de Março
300 Palavras
(atrasei a data e ultrapassei o limite, desafio não cumprido)

Mercedes deu-me um pontapé

                Mercedes deu-me um pontapé e eu chorei. Foi grave, os seus sapatos eram brancos e bicudos, com salto e pele bovina, sapatos de adulta para uma criança patuda, sapatos que a mãe empresta para a festa, eram fortes, eram duros, doeu muito. Ficou uma nódoa negra tão grande, potencial abcesso, que o meu pai fotografou para fazer queixa à escola.

                Revelaram-se as fotografias quando já todos tinham esquecido o caso. Mercedes nunca recebeu ordem de suspensão ou expulsão e manteve-se tal como era, gorda e evidente, dominando todas as danças infantis e pontapeando as crianças mais passivas. O tempo foi passando e mudámos todos de turma, fui perdendo Mercedes de vista nos corredores da escola. A rapariga crescia, é claro, como todos nós, mas a sua forma curvilínea nunca deixava de arredondar e o seu sorriso sempre tinha uma sombra de gordura.

                Continuava a vê-la, cada vez maior, cada vez mais expressiva na sua vontade de dominação, até que saímos todos da escola. Depois disso, foi rápido até nos esquecermos todos uns dos outros e começarmos uma nova vida. Esqueci o pontapé e esse dia em que chorei.

                Claro que, passado uns anos, a nostalgia da recordação infantil regressa e, por isso, fazem-se esforços para organizar encontros, jantares e almoços, coisas do género. Nessa altura, lembrei-me de Mercedes e do seu sapato branco. Será que se a encontrasse de novo a poderia humilhar, defender-me tardiamente do ataque inusitado de que havia sido vítima? Fantasiei sobre este assunto e pratiquei várias versões do diálogo do confronto, tudo na minha cabeça. Pensei que poderia abrir logo as hostilidades acendendo um cigarro (chocante fumar cigarros, pensava eu) e dizendo “continuas gorda, Mercedes”, ou algo igualmente agressivo.

                “Continuas gorda, Mercedes, és um mamute, Mercedes, és uma besta, Mercedes, merecias um pontapé nessa cabeça gorda, Mercedes, odeio-te, Mercedes, ainda te posso odiar, Mercedes, pede desculpa, Mercedes, eu ainda tenho as fotografias, Mercedes, Mercedes, Mercedes, fode-te, Mercedes, Mercedes, merdas de Mercedes.”

                A antecipação do jantar oficial da quarta classe abria-me o sorriso e eu sentia os meus caninos desejosos de provar a carne tenra da ofensa, a vingança gelada do palavreado ensaiado. Mas, lá chegada, que é de Mercedes? Estavam lá todos, a Barroso, os Brunos, a Chiquinha, todos. Mas que é de Mercedes?

                Informou-me a rede social que vive agora no Dubai ou noutro lugar igualmente estranho. Vi as suas fotografias. A sua cara redonda, menos gorda, mais curvada, vive agora coberta pelo manto do respeito muçulmano. Continuei a vê-las, Mercedes feliz, Mercedes cheia de vida e cheia de tudo. E, mais abaixo, uma fotografia de infância. Com os sapatos brancos. E continuo sempre a recordar-me de quando Mercedes me deu um pontapé e eu chorei.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Desafio de Escrita - Bonequinha

Antique Baby Doll Head on a Book, Diane Irvine
Desafio de Escrita #5
Tema: Solidão
Data: 31 de Janeiro
300 Palavras
Bonequinha



                Eu não estou sozinha. Tenho-te a ti. Tu, minha filhinha, pequenina, pequenina, filhinha de plástico, olhos sem vida mas ainda assim tão cheios de carinho. Por isso, não estou sozinha.

                Lembro-me de quando te escolhi. Desde que me lembro que o meu maior sonho era ser mãe. Não era ser esposa nem namorada, não. Era ser mãe. Não tinha de te carregar no ventre, não tinha sequer que te parir, não. Só precisava de te ter e ser a tua mãe. O meu sonho, ter um bebé, um bebé eterno, que nunca crescesse, para que toda a vida eu pudesse continuar a ser uma mãe extremosa, mudando fraldas, dando as papinhas, vendo o sorriso nos fininhos lábios da criança que tornaria o meu maior desejo realidade. E foi quando, na minha puberdade, me diagnosticaram um útero ausente, que o sonho se tornou realidade. Porque te escolhi a ti, minha filhinha, bonequinha, pequenina, olhitos de vidro, mãozita de silicone que aperto na minha.

                Quando comecei a carregar-te ao colo, teu corpinho minúsculo, sem genitais, sem sistema gastrointestinal, articulações de mobilidade limitada, nessa altura as pessoas começaram a afastar-se de mim. Não entendia, continuo sem entender. Será que a vida de uma mãe, qualquer mãe, é assim? Não entendo mas não me importo. Porque não estou sozinha e tenho-te a ti. Bonequinha, bonequinha. Minha querida filha.

                Ando contigo pelas ruas e as pessoas olham-me. É maluca, é maluca. Talvez seja. Mas de amor, sim. Tanto amor.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Desafio de Escrita - Autocensura

Mao, Andy Warhol










Desafio de Escrita #4
Tema: A Maldição das Cuecas Chinesas
Data: 31 de Dezembro
300 Palavras
Autocensura
Censura, censura, autocensuro-me perante o grande Mao, ofereço a mim própria o castigo perante o poderoso Mao, líder supremo que permitiu o Grande Salto em Frente, censura, censuro-me, autocensuro-me pela maldição que me assolou, pela grande maldição que me envergonhou, pela maldição que me humilhou perante a glória da minha grande nação! Afirmo hoje, afirmo agora e amanhã, afirmo para toda a minha vida, a minha fraqueza, a minha incapacidade para utilizar da força do grande líder para controlar meu corpo, minha carne! Afirmo que sim, fui eu, fui eu quem sujou as cuecas, fui eu a mandatária da maldição das cuecas, sujas de sangue, sujas de lixo, lixo humano, lixo, autocensura! Se meu corpo estivesse prenhe da nova vida sagrada, da semente do grande líder, não teria o sangue menstrual, calamidade, anti-natalidade, não teria o sangue sujado as lindas cuecas ofertadas por meu poderoso presidente para que meu útero contivesse sua nova vida, sua descendência, sua bela, forte e sagrada prole que nos permitira continuar a revolução, censuro-me, fui eu, autocensura, autocensura, autocensura! Peço perdão e vergasto minhas mãos, peço que vós, meus líderes, meus sindicatos, peço que me tirem do corpo este útero amaldiçoado que não permite vida em si, este órgão inútil, esta maldição que suja as cuecas, as cuecas ofertadas, castiguem-me, castiguem-me, autocensura, censura, castigo! Só assim poderei algum dia receber o perdão.

sábado, 4 de novembro de 2017

Desafio de Escrita - Manifesto da Pessoa Azul

Blue Person, Christina Varga









Desafio de Escrita #3
Tema: Preconceito
Data: 30 de Novembro
300 Palavras

Manifesto da Pessoa Azul

                Não falarei muito, pelo menos nesta fase, do processo. Devo apenas dizer que foi muito rápido e indolor. A consequência podem vê-la à vossa frente. Sou uma pessoa azul. As declarações que faço são, portanto, enquanto pessoa que tem um tom de pele diferente. Um tom de pele inusitado mas não impossível pois, como podem ver, sou azul. Falo-vos para inquirir sobre os direitos que eu e outras pessoas azuis deveríamos ter na sociedade actual.
               
                Durante este curto espaço de tempo em que tenho a tonalidade de pele azul, fui vítima de muitas actividades insensíveis e por vezes quase terroristas pela parte das pessoas de pele de cor normal. Para começar, aquando a finalização do processo (que, devo lembrar, foi puramente acidental), pesquisei um pouco e descobri que existem apenas zero virgula zero um por cento de pessoas azuis no nosso planeta. A ocorrência é tão rara que a maioria das pessoas, as de pele de cor normal, pensam ser impossível. Quando saí à rua a primeira vez, afastaram-se de mim. Pensavam que eu era um mutante, que tinha vindo de Chernobyl, que tinha poderes extra-sensoriais, que vinha de outro planeta… Mas isso é tudo injusto. Afinal, a tonalidade de pele azul é um dado cientificamente provado e não tem qualquer relação com ondas radioactivas ou qualquer outra ideia que as pessoas possam ter.

                Falo-vos agora porque me parece injusto que as pessoas de pele de cor normal tenham direitos acrescidos devido apenas ao seu tom de pele, que é normal. As pessoas de pele de tonalidade azul deveriam ter quotas para garantir a sua empregabilidade, já que ainda existe muito patente a ideia de que nós, os azuis, temos capacidades intelectuais superiores, o que é de todo mentira. Somos apenas seres humanos normais. Deveria haver um grupo que lutasse pelos direitos das pessoas de pele de tonalidade azul. Para esclarecer a população em geral de que não somos estranhos, nem que somos entidades superiores e, muito menos, entidades destrutivas que tencionam tornar toda humanidade em pessoas azuis.

                Só gostava que pensassem a verdade: somos azuis, mas somos normais.

domingo, 29 de outubro de 2017

Desafio de Escrita - Floresta Digital

A Floresta, Paul Cézanne










Desafio de Escrita #1 (proposto no grupo Eden)
Tema: Era da Informação
Data: 7 de Novembro
300 Palavras

 
Floresta Digital


                Depois do flagelo dos incêndios florestais que assolaram o nosso país no final dos anos dez do presente século, foi decidido pelo governo implementar nova tecnologia vegetal, que havia sido criada num laboratório californiano no ano de 24.

                Através da alteração genética do ADN mitocondrial dos eucariotes vegetais, foi possível inserir um gene biomecânico e biométrico. Originalmente, tal havia sido criado para medir e pesar os vegetais utilizados para a alimentação humana, um passo à frente do transgénico porque, para além de transgénico, era quase andróide. Apesar das manifestações ecologistas sobre a destruição da vida vegetal tal como a conhecemos, tal projecto caminhou a passos largos para a sua conclusão devido a uma descoberta fascinante: a tal alteração genética tinha o efeito secundário de transmitir às plantas a capacidade de produzir rede wi-fi.

                A partir do momento em que semelhante descoberta foi lançada ao público, imediatamente a população generalista de todas as cidades correu a investir nas acções da empresa, que rapidamente colocou a sua tecnologia disponível ao público. Agora, como sabemos, poderemos comprar um vaso de ervas aromáticas, como salsa ou coentros, e ter rede wi-fi livre, desencriptada, na nossa casa. As consequências, tal como vimos nos últimos anos da década, foi a falência progressiva dos gigantes das telecomunicações, facto que impediu a implementação do projecto do nosso país por pressão unilateral destas em aposição às ideias do governo.

                Mas, graças aos votos da minoria de esquerda, foi possível o estudo, criação e implementação do projecto “Floresta Digital”. Assim, nos tempos que correm, temos as áreas ardidas completamente reflorestadas, sendo que os incêndios de Verão foram essencialmente eliminados. Afinal, as árvores nunca serviram para grande coisa excepto para criar o oxigénio que respiramos. Agora que temos uma nação com uma área de rede wi-fi livre invejável pelos outros países Europeus, todos desejam plantar a sua própria árvore de forma a contribuir socialmente para a comunicação sem fronteiras, sem limites e sem qualquer tipo de valor acrescentado.